Operadores e produtores de conteúdo veem modelos tradicionais em risco

O painel de abertura do primeiro dia da IBC2012 Conferece, que acontece até o dia 11 de setembro em Amsterdã e é uma das maiores feiras de telecomunicações e televisão do mundo, teve como tema os desafios dos broadcasters em cenário de mudança nos padrões de consumo de conteúdos da TV e a competição com provedores de serviço over-the-top (OTT). Uma das conclusões do debate é que embora a tendência de consumo de conteúdos on demand e em múltiplos devices seja irreversível, a transmissão linear de conteúdos não vai desaparecer e as novas tecnologias podem servir para aumentar a audiência dos canais lineares não apenas da TV aberta, mas também da TV por assinatura.

“A realidade é que as pessoas não assistem tecnologia, mas conteúdo. E isso não muda, o que muda é a forma como disponibilizamos o conteúdo para o consumidor”, pontua o CEO da Sky Deutschland, Brian Sullivan. Para ele, o mercado de TV por assinatura andava estagnado na última década e agora é preciso trazer esse mercado de volta à vida. “Não temos medo de tecnologia, e a usamos para entregar uma grande experiência para o usuário e criar um laço emocional com ele. E de engajamento emocional os broadcasters entendem, principalmente quando se trata de esportes, e é por isso que o broadcast sempre será relevante”, diz. Para modernizar a experiência de seus assinantes de DTH, a Sky holandesa (que não tem nenhuma relação societária coma Sky no Brasil) lançou seu serviço on demand Sky Anytime e também o Sky Go, seu conceito de TV everywhere.

Para a vice-presidente sênior de Media Distribution da The Walt Disney Company EMEA, Catherine Powell, novas plataformas significam novas oportunidades de se chegar ao consumidor e a TV precisa se adaptar a uma experiência que agora vai além da transmissão linear. “O que pudemos observar é que os serviços on demand de nossas marcas ajudam na descoberta de conteúdos e trazem o público de volta para a TV linear”, conta Catherine.

“O desafio é de criatividade”, acrescenta o diretor de política e estratégia e Chairman de estúdios e pós-produção da emissora pública britânica BBC, John Tate. “Precisamos capturar o potencial 360 dos meios digitais para promover nossos conteúdos e os broadcasters têm a vantagem de explorar conteúdos ao vivo de esportes, notícias e entretenimento de novas maneiras”, completa.

Modelo não sustentável

Para Sullivan, o que preocupa não é a competição com os serviços e conteúdos que chegam pela banda larga, mas sim o modelo que se estabelece. “O modelo OTT foi construído tendo acesso a conteúdos a preços muito baixos e vendendo serviços ao consumidor também a preços muito baixos, e esse modelo não será sustentável no futuro”, avalia.

Já o presidente e CEO da Discovery Networks International, Mark Hollinger, acredita que a indústria se encontra em um momento em que a tecnologia, com seus modelos OTT, ameaçam a sustentabilidade dos investimentos na produção de conteúdos de qualidade. “Apenas este ano estamos investindo US$ 1,2 bilhão em produção de conteúdos e precisamos assegurar que a TV por assinatura, que é quem nos dá condições de continuar investindo, cresça. Além disso, os OTTs ameaçam também as receitas com publicidade, que hoje representam 40% das nossas receitas totais. São duas linhas de receita em risco, e não apenas uma”, avalia Hollinger.

O executivo da Discovery, entretanto, ressalta que a programadora não está de olhos fechados para esse mercado. Em entrevista a este noticiário, Hollinger lembrou que a programadora tem parcerias com a Netflix e com a Amazon para distribuição de conteúdos nos EUA, um mercado já maduro, onde a penetração da TV paga ultrapassa os 90%. “Lá, diferente de outros mercados, não corremos o risco de minar o crescimento da TV por assinatura e mesmo assim nossos conteúdos para OTTs não têm uma janela inferior a 18 meses.” O tratamento para serviços on demand das próprias operadoras de TV paga também é diferenciado na Discovery. “Nesse modelo trabalhamos com uma janela menor e mais conteúdos, porque vemos nele um complemento ao serviço das operadoras, uma forma de agregar valor para o assinante”, conclui. Sullivan concorda: “Se os conteúdos OTT forem complementares à TV por assinatura, é ótimo; se for canibalista, será prejudicial”.

Catherine, da Disney,  revela que alguns programas da ABC (emissora aberta dos EUA) já têm mais de 50% da audiência em ‘time shifting’, sendo vistos no DVR ou através de serviços tipo catch-up TV. “On demand e OTT não são a mesma coisa. E ninguém vai sobreviver sem on demand, mas é preciso ter cuidado com a canibalização”, diz.

O consenso a que se chegou no debate é que o futuro da distribuição de conteúdos reside na capacidade de achar um equilíbrio entre o modelo de empacotamento de canais e o modelo on demand. Não necessariamente esse é um jogo de o vencedor leva tudo, temos de encontrar um equilíbrio”, diz Sullivan. “Será o ambiente equilibrado que garantirá o modelo de produção de conteúdo de qualidade de forma sustentável”, completa Hollinger.

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