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5G diretamente do espaço

Satélite BlueWalker 3, da AST SpaceMobile. Foto: Divulgação

Já dizia o falecido apresentador de TV, Chacrinha, desde a década de 1980: “Quem não se comunica, se trumbica”. Se o programa ainda existisse hoje, talvez ele modificasse seu bordão para algo como: “Quem não se conecta, flopa” – entenda-se fracassa!

É por isso que afirmo que o espectro – seja em radiofrequência ou nas bandas via satélite – é um dos novos artefatos de riqueza deste século (junto com a informação, o lítio, o software e outros). Compartilho os dados que analisei para debatermos.

Fatos e hipótese

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Partamos do seguinte raciocínio:

1- O acesso à internet é vital para pessoas e empresas.

2– Há diferentes formas de acesso e, hoje, a mais rápida é o 5G, uma rede móvel que pode causar uma grande revolução, especialmente no uso de dispositivos inteligentes conectados via internet das coisas – IoT e na habilitação das Cidades Inteligentes. Até agosto deste ano, eram 543 Operadoras Investindo em 5G em todo o mundo; 265 delas já lançadas; 1.704 dispositivos 5G disponíveis; e mais de US$ 50 bilhões gastos em leilões e atribuições de espectro relacionados ao 5G.

3– O maior desafio enfrentado pelo 5G é o uso de frequências mais altas que, embora propiciem maior velocidade e mais dispositivos conectados simultaneamente, têm alcance reduzido, o que significa que cada torre 5G cobre uma área menor em comparação ao 4G.

4– A maioria dos países que adotaram 5G países são economias pujantes, porque a infraestrutura de transmissão dessa tecnologia ainda é cara.

Uma das saídas que se apresenta para esse impasse é as Operadores de Redes Móveis (MNOs) firmarem parcerias com provedores de serviços de comunicação via satélite (SatCom) para oferecerem serviços 5G a mais gente, sem desembolsar recursos do próprio bolso e, assim, obterem receita. De quebra ainda desobstruirão as redes terrestres.

Em setembro, a Juniper Research soltou um relatório em que estima o potencial de geração de receita adicional em empresas que apostarem nessa sinergia: 17 bilhões de dólares, entre 2024 e 2030! E afirma também que cooperar com empresas de satélite ajudaria as operadoras a se prepararem para o 6G. A pesquisa prevê que o primeiro lançamento comercial de uma rede de satélites 5G ocorrerá em 2024, com mais de 110 milhões de conexões de satélite compatíveis.

Em contrapartida, as operadoras oferecem: relacionamento prévio com um alto número de clientes de serviço móvel, ou seja uma plataforma de “geração de leads”; e o conhecimento de navegar tranquilamente pelas regulamentações globais e regionais de cada sistema de telecomunicação atuante neste exato momento.

Daí, acendeu-se o debate sobre Projetos de Parceria de Terceira Geração (3GPP).

Alcance Global do 5G

Empresas que investiram em tecnologia 5G mundo afora endividaram-se para montar a infraestrutura. Uma estimativa da Moody’s Investors Service aponta que para adquirirem as licenças do espectro 5G e implantarem as torres, essas operadoras aumentaram suas dívidas de US$ 1,07 bilhão, em 2018, para US$ 1,21 bilhão, ao final de 2022.

Segundo o último relatório da Ericsson, há uma tendência de crescimento positiva nos 20 principais mercados 5G desde o primeiro trimestre de 2020, relacionadao à migração dos consumidores aos planos 5G. O crescimento médio da receita nos últimos 2 anos foi de 3,2% ao ano e demosntra o potencial para o crescimento contínuo do ARPU e das receitas.

Mesmo assim, o sucesso é apenas relativo, uma vez que a cobertura continua baixa nas macrorregiões da Eurásia, África, Oriente Médio e América Latina.

Segundo uma pesquisa da Omdia, em junho deste ano, Hong Kong tinha a maior taxa de penetração 5G do mundo, com 74% da sua população assinando o serviço móvel. Classificadas em segundo e terceiro lugar no mundo ficaram a China continental e a Coreia do Sul, que registaram taxas de assinatura móvel 5G de 60% e 59%, respetivamente. Nos EUA, cerca de 43% das pessoas tinham assinaturas móveis 5G – 10º lugar no ranking mundial.

Em muitos lugares remotos do planeta como Groenlândia, Congo e Papua Nova Guiné, há serviços 3G e 4G regulares exatamente porque os sistemas de satélite de alto rendimento forneceram o backhaul (responsável por fazer a ligação entre o núcleo da rede e as sub-redes periféricas) móvel e o entroncamento para redes móveis terrestres.

Testes já foram feitos e os satélites atuais podem ser incorporados perfeitamente às redes 5G para oferecer suporte às principais funcionalidades – chamada de voz entre aparelhos celulares (a primeira aconteceu em abril deste ano); banda larga móvel aprimorada; computação de ponta e IoT.

Por outro lado, é válido questionar se essa solução de oferecer cobertura de banda larga via satélite é global, terá vasta adesão; ou é específica para regiões remotas e escassamente povoadas do planeta, onde as redes terrestres são financeiramente inviáveis?

O fracasso da Iridium, empresa de telefonia por satélite criada no final da década de 1980 pela Motorola é um alerta. Era um sistema bem caro – tanto a compra do aparelho em si quanto a taxa de serviço mensal – baseado numa grande e complexa constelação formada por aproximadamente 66 satélites que orbitam a Terra em baixas altitudes e criam uma rede de cobertura em todo o planeta.

Promessa de mais negócios

A ideia de utilizar satélites LEO (low-Earth orbit ou órbita baixa, que opera perto da Terra) para Internet e comunicações está longe de ser nova (Projeto Iridium de novo). Inúmeras empresas como a Starlink, de Elon Musk, já fornecem tais serviços.

De acordo com a UCS Satellite Database, em 2022 havia cerca de 6.000 satélites orbitando nosso planeta para exercer funções como comunicação, navegação e pesquisa científica.

Mais da metade deles – especificamente 3.395 – pertencem à Starlink, a única que lançou este ano um satélite para operar no padrão celular 5G. Segundo a empresa trata-se do primeiro de uma constelação de mais de 250 que se comunicarão com torres de celular terrestres e preencherão lacunas nas redes de dados em todo o mundo.

Para termos de comparação, o governo americano tem 306 satélites ativos; a China tem 369; e Jeff Bezos, da Amazon, quer balançar a liderança dessa indústria com o Projeto Kruiper.

O plano de Bezos é colocar 3.236 satélites em órbita. Dois protótipos foram lançados no espaço no início de outubro, com sucesso, mas deverão estar operacionais somente ano que vem.

Uma das possibilidades mais atraentes do 5G continua a ser a montagem de redes privadas – um sistema construído segundo os mesmos padrões de um serviço mobile de alta velocidade, mas adaptado a uma empresa que opera numa área menor como um escritório ou planta fabril. Essas redes podem conectar uma variedade de computadores, sensores e robôs sem o incômodo e o custo de conectá-los com fios.

Atualmente, apenas a infraestrutura terrestre tem sido utilizada para fornecer esta conectividade. Então o apetite dos competidores é enorme.

A posição do Brasil nesse cenário

A infraestrutura de satélite pode de fato melhorar a cobertura da rede e endereçar os desafios de conectividade em locais como a Amazônia, impulsionando o desenvolvimento de tecnologias verdes e atividades sustentáveis na região.

Eu me pergunto, entretanto, se haverá uma revolução generalizada do mercado de telecomunicações e quais organizações nacionais seriam capazes de encabeçar este desenvolvimento?

Possuímos 13 satélites em órbita, além de outros três que dividimos com países como China, EUA e Japão. Esse conjunto foi lançado entre 2000 e 2021; é capaz de transmitir rádio, TV, telefonia e internet para Brasil, México e demais países da região. Nove deles são usados para comunicação.

Em maio, a GSA (Global mobile Suppliers Association) contabilizava um total de 49 parcerias anunciadas publicamente entre empresas de telecomunicações e operadoras de satélite, em 34 países. Os contratos estavam centrados em cinco categorias de uso: banda larga rural e empresarial; IoT e M2M (dispositivos sem fio implantados em campo com sensores integrados ou redes de comunicação wireless); satélite para celular; comunicações de emergência; e backhaul.

Esse dado leva a crer que à medida em que o agronegócio brasileiro se digitaliza, a demanda pelo 5G crescerá. Se somos o celeiro do mundo; poderemos vir a ser os grandes utilizadores de 5G via satélite também.

Depois dos prós, alguns contras

A ideia de satélites 5G fornecerem a banda larga de que necessitamos pode parecer ótima, mas existem inúmeros desafios que os operadores enfrentam e que não podem ser ignorados.

Em primeiro lugar, as distâncias envolvidas entre os dispositivos no solo e os satélites no espaço têm impacto na velocidade da conexão. Se as conexões não forem otimizadas de acordo com o georeferenciamento, os dispositivos móveis consumirão muita energia para manter boas velocidades de download e upload, o que reduz a vida útil das baterias.

Isto significa que o 5G baseado em satélite seria mais provavelmente um serviço de reserva em vez de uma fonte de ligação primária (no estágio atual de tecnologia das baterias de celular).

Outro desafio enfrentado pela infraestrutura espacial é a necessidade de colocar satélites em órbita. Embora a SpaceX possa colocar centenas de pequenos satélites da Starlink no espaço, esse ainda não se provou um modelo rentável (ainda). A necessidade de muitos satélites para aumentar a cobertura gera problemas de custos e de confiança.

Serão os satélites tão populares quanto a internet? A Starlink, que previa conseguir no Brasil 200 mil clientes, angariou apenas 20 mil. Impossível prever quão bem-sucedida será a Amazon, se terá mais adesão ao operar seu sistema.

Só posso desejar boa sorte aos competidores. Que vençamos todos nós, consumidores.

* Sobre o Autor: Omarson Costa é Diretor da TNB e conselheiro de administração para empresas dos setores de telecomunicações. As opiniões expressas nesse artigo não necessariamente refletem o ponto de vista de TELETIME.

1 COMENTÁRIO

  1. Se a starlink não fosse uma empresa tão fechada a parcerias e permitisse que houvessem representantes físicos, pessoas de verdade visitando as áreas rurais no Brasil seus clientes já seriam de milhões, eu mesmo os escrevi tentando representá-los, porém sequer resposta tive, assim sendo deixo a eles minha pergunta, como pode uma empresa aumentar suas vendas tendo tal comportamento?

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