Quando e quem trará o 5G ao país

Fábio Viana

Esperava-se que a realização do leilão de áreas e frequências do 5G daria vazão à chegada em massa de inovações usadas em grande escala em outros países e que, por estarem ausentes aqui, reduziam significativamente a competitividade do país. Dada a grande necessidade de adoção dessas soluções, o novo padrão de banda larga seria a força motriz das telecomunicações a partir deste ano. Nada disso, porém, ocorrerá nos níveis esperados num futuro tão próximo. Há fatores globais e internos que impedem a concretização imediata dessas expectativas. Os movimentos que serão observados no setor a partir de já serão outros.

O mundo inteiro enfrenta uma crise no suprimento de microprocessadores. Todos os países são impactados em algum nível. A reduzida oferta mundial de chips compromete indústrias em todo o planeta. No caso do Brasil, que não dispõe de produção do equipamento, o impacto é mais profundo e afeta sensivelmente, dentre outros, a indústria automobilística. Se essa crise de abastecimento prejudica seriamente a produção de tecnologias que estão no mercado há anos e que, assim, dispõem de cadeias entre produtores e compradores bem estabelecidas, o problema torna-se crítico quando envolve novos componentes – caso dos destinados ao 5G e às soluções por ele viabilizadas – e o fornecimento a novos demandantes – por exemplo, os players nacionais que aguardavam o leilão para ofertarem serviços baseados no novo padrão de conexão.

Ainda que houvesse suprimento de chips, a economia do país não é favorável à adoção de inovações que impliquem em aumento do consumo e que demandem investimentos. Pelo contrário. A onda inflacionária determinou altas ininterruptas da taxa de juros em todas as reuniões do Copom realizadas desde maio último. Neste cenário, em que o brasileiro sofre com perda do poder aquisitivo e elevado e ascendente endividamento, poucos contratarão serviços que chegam ao mercado, caso do 5G. Já as empresas, com expectativas de que haja reduzida procura por lançamentos, adiarão investimentos, principalmente quando sua oferta demandará a tomada de crédito caro, resultante de uma taxa básica de juros que volta a se fixar acima dos dois dígitos depois de quase quatro anos. Tudo isso em um momento em que o país vive a expectativa de uma nova recessão.

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Haverá, obviamente, alguma oferta e consumo, no curto prazo, de pacotes, serviços e soluções vinculados ao 5G, só que restrita a grandes centros e em escala reduzida, o que impedirá, por ora, sua popularização e consequentes ganho de escala e barateamento.

Num cenário desses, ativos tornam-se baratos e é a partir daí que se darão os movimentos que definirão os players que participarão da chegada, de fato, do 5G ao país. Nele, estão de olho investidores  nacionais e estrangeiros. Os últimos, favorecidos por um câmbio desvalorizado, sempre buscam opções atrativas no país, por conta de um mercado com mais de 200 milhões de habitantes. Os daqui, com uma inflação também em dois dígitos e sem ganhos reais na renda fixa, permanecerão atentos à economia real.

Ambos buscam segmentos que dispõem de potencial de expansão. No caso dos provedores regionais, que registram crescimento superior a 20% há anos, existem ainda inúmeros atrativos. Além da pandemia impor ainda algum isolamento social, a adoção do trabalho remoto por muitas atividades e a popularização do comércio online, dentre outros dependentes de acesso à Web impostos ou popularizados pelo vírus, mantêm a demanda por internet significativamente superior a de poucos anos atrás. E, com as pessoas executando mais atividades no espaço virtual, segue em curso uma migração das grandes cidades rumo a regiões mais afastadas, justamente aquelas em que atuam os PPPs.

Embora os provedores regionais tenham ampliado ano a ano o número de acessos à banda larga do país atendendo à localidades distantes dos grandes centros, muitas regiões permanecem desassistidas, o que garante um potencial extra de crescimento para essas empresas. Além desses fatores, o segmento, mesmo vivenciando já há algum tempo intensa onda de fusões e aquisições, permanece extremamente pulverizado e, portanto, barato para investidores de todos os portes e nacionalidades.

O que muda no cenário atual é que, após anos respondendo pela expansão do número de conexões de banda larga no país, os provedores regionais não só chamaram a atenção da Anatel como também se tornaram estratégicos para suas políticas de expansão da oferta do serviço – há muito classificado como essencial. Por conta disso, a agência criou, ao longo de 2021, novas obrigações para os ISPs que, desta forma, ficam sujeitos a um novo grau de exigência regulatória por parte da autarquia que, por mais que ambicione a universalização da oferta de Internet rápida do país, exige que ela ocorra a partir de empresas devidamente legalizadas, algo que, num passado próximo, não fora devidamente exigido. Até porque devem ser essas empresas que, mais adiante, levarão o 5G à maior parte do território nacional.

Profissionalização

No mesmo sentido da onda de regularização, surge um processo de  profissionalização administrativa compulsória. Os investidores que observam os PPPs como possíveis destinos de seus aportes continuarão a descartar empresas que, por anos, cresceram mesmo mal administradas, com dificuldade de gerir carteiras de clientes – ofertas corretas do que fora contratado, cobranças, suspensão de inadimplentes e afins -, geração de passivos – fiscais, regulatórios, com fornecedores, colaboradores etc. -, por conta exclusiva de uma imensa demanda pelo que ofertavam. A gestão passa a determinar os ISPs que permanecerão no mercado.

Seja a partir do principal regulador de sua atividade, seja pelo capital que intensifica sua presença no segmento, os provedores regionais passam a se transformar de empresas que eram, na maior parte, quase que informais, em grupos sólidos e, principalmente, bem geridos. Foi-se o tempo em que a pura demanda por banda larga em regiões afastadas permitia a existência de ISPs mal administrados ou até clandestinos. A profissionalização é o que dará base para que, quando o ambiente macroeconômico permitir, exista, de fato, o 5G no país.

*Sobre o autor – Fabio Vianna Coelho é sócio da VianaTel e da RadiusNet, empresas especializadas, respectivamente, em regularização e software de gestão especialiado para provedores. As opiniões expressas nesse artigo não necessariamente refletem o ponto de vista de TELETIME.

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