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TV por assinatura
Modelo legal e empacotamento da TV paga precisam mudar, diz CEO da Claro Brasil
quinta-feira, 08 de novembro de 2018 , 23h17

Com mais de 8,8 milhões de assinantes de TV paga, o grupo Claro Brasil, somando a Net Serviços e a Claro TV, é de longe o maior player de TV por assinatura. É, portanto, o player com maior poder de influência no mercado. E a Claro acha que chegou a hora de dar uma "sacolejada" no setor de TV paga, mudar radicalmente o modelo existente, rever alguns pilares que há décadas sustentam a indústria. Em conversa com este noticiário, José Félix, CEO do grupo no Brasil, foi categórico: "vai doer".

Primeiro, ele faz um alerta sobre a perda de base que desde o final de 2015 vem drenando o mercado de TV por assinatura no Brasil. "Resolvemos limpar a nossa base de assinantes. Não vamos pagar para ter gente na base. E a cada decisão desta alguém vai perder dinheiro. É um processo que está em curso e que vamos fazer mais, vamos propositadamente acelerar. A TV por assinatura vai perder mais base, porque não podemos ficar pagando programador e imposto para assinantes que trazem prejuízo, só para dizer que é maior. Vai doer", diz o executivo. "Se a gente não começar a consertar essa realidade, vamos virar reféns dos gigantes (de Internet)", alerta.

E qual é a realidade que Félix entende que precisa ser consertada? Para o presidente do grupo Claro Brasil há duas questões críticas: o modelo legal da TV por assinatura e a política de empacotamentos de canais.

O inconformismo com o modelo legal nasce da constatação de que há provedores de conteúdos lineares tradicionais da TV paga que estão partindo diretamente para a oferta de serviços pela Internet. "Vejo Fox, Première, NFL, todo mundo indo direto para a Internet. Não está previsto em lei o que eles estão fazendo. Aliás, está previsto em lei: na Lei do SeAC. Quer fazer? Precisa ser SeAC, com todas as obrigações. Se você está fazendo alguma coisa que está embaixo da legislação, tem que cumprir a lei. Pode gostar ou não (da lei), pode trabalhar para revogá-la, mas é a que existe e está sendo descaradamente infringida e ninguém fala nada". O problema com estes canais, diz, é que não são ofertas sob demanda, mas os mesmos conteúdos ofertados nos canais pagos, simultaneamente à oferta linear. Para Félix, existem dois caminhos a serem seguidos paralelamente para resolver esse problema. "Tem que mudar a lei, mas, até lá, não pode fazer".

Félix não vê o mesmo problema nem com Netflix, nem com Amazon nem com os canais pagos que colocam os conteúdos on-demand. "Do ponto de vista da execução da transmissão da programação, eles não transmitem futebol, eles não fazem nada ao vivo, é tudo não-linear, aí está ok. São concorrentes que amanhã podem ser aliados, porque produzem programação como qualquer outro". O problema, para Félix, é o conteúdo linear e ao vivo, sobretudo o esportivo, distribuído no modelo OTT. "Tem uma premissa ideológica de que na Internet pode tudo, tem que ser 100% livre", diz. Segundo o presidente do grupo Claro Brasil, a empresa já analisou juridicamente a questão e entende que se a oferta é linear, pela Internet, o provedor de conteúdo teria que seguir as regras do SeAC.

"Há outras questões que têm que ser vistas, porque pode vir gente muito poderosa, como a Amazon, que tem por trás um business mais importante e para quem a TV paga é só uma forma de alavancar o verdadeiro ganha-pão. O Netflix uma hora terá que ser rentável como operação de TV, mas a Amazon não. Talvez o Cade ou outra instância terão que discutir isso no futuro", diz.

Tordesilhas

Félix levanta ainda um segundo problema: a Lei do SeAC impede que empresas de conteúdo sejam distribuidoras e empresas de distribuição sejam produtoras de conteúdo. O mecanismo foi apelidado de Tratado de Tordesilhas para ilustrar a regra de propriedade cruzada presente nos Artigos 5 e 6 da Lei do SeAC. "Não acho que seja a melhor lei do mundo, mas lei é lei. Para mim, isso é um problema sério que precisa ser atacado. Acaba com essa reserva de mercado, porque eles (os programadores) estão distribuindo o conteúdo que eles fazem", diz. "O grupo Claro tem conteúdos próprios em outros países, mas não tem no Brasil, porque a gente cumpre a lei. A lei nos proíbe de fazer conteúdo, porque fazemos distribuição. Desligamos um canal local um mês depois da Lei do SeAC. Se agora mudasse a Lei a gente ia querer ter conteúdo próprio no Brasil com certeza. Exclusividade de conteúdo é um diferencial. Já vimos isso no começo da indústria. A exclusividade da Globosat era um tremendo diferencial das operações da Net", relembra, referindo-se ao modelo comercial que vigorou até meados dos anos 2000, quando os canais Globosat eram exclusivos das operadoras Net e Sky. "Se eu for produzir conteúdo, posso fazer algo exclusivo para mim, como fazem os outros (de Internet). Nada me proíbe de ter conteúdo exclusivo. Conteúdo é importante para o nosso futuro. Boa parte de nossa receita vem disso", diz José Félix.

Para o presidente do grupo Claro Brasil, "enquanto não se muda a lei, e eu acho que tem que ser mudada, todos têm que se enquadrar. A lei é protecionista, é anticoncorrencial, faz uma reserva de mercado (para os grupos nacionais). É uma lei esdrúxula que veio para acomodar algumas situações. Passou, todo mundo viu o que deu certo e o que deu errado. Gerou distorção e é hora de resolver".

Félix lembra que hoje o grupo tem o Now e o ClaroVídeo como plataformas de vídeo sob demanda e distribuição OTT. "Teoricamente, o que me impede de vender esses negócios na Internet independente da TV a cabo? Nada. Que imposto eu pagaria? O ISS. Portanto, em teoria, não existe um desequilíbrio com os OTTs", diz ele, falando sobre a situação de possível assimetria com Netflix, mas ele lembra que as empresas de Internet podem produzir conteúdo, e estão fazendo isso livremente. "Não tem uma ideologia por trás, não estou com medo, só quero igualdade de condições. O modelo de TV por assinatura está mudando", alerta.

Para ele, o modelo regulatório é um problema concreto, que inibe a competição e a inovação. "Esta reserva de mercado está cômoda. Só que está vindo um povaréu por fora que não está a fim dessa acomodação, que quer sacolejar tudo. E queremos estar junto desse movimento. E tem que ser um movimento dentro da lei". Ele admite que está, de certa forma, alinhado à tese que a Sky vem defendendo para tentar aprovar a fusão entre AT&T e Time Warner no Brasil. "Eu jogo em favor da Sky com essa posição, mas está todo mundo nessa briga. Se muda a lei, isso está resolvido para eles".

"O cliente, a pessoa comum, quer o agora, ninguém está preocupado se o Brasil vai ser invadido por empresas estrangeiras de Internet. Ele está preocupado em receber um produto bacana pagando barato, e ele está certo. A gente coloca ideias numa lei e isso fica incoerente com a realidade", afirma Félix. Para ele, o receio que havia de que as empresas de telecomunicações atropelariam as empresas de conteúdo quando a Lei do SeAC foi elaborada, entre 2007 e 2011, hoje está se materializando na Internet.

Empacotamento

Mas não é só a legislação de TV paga e o impedimento para que empresas de telecomunicações produzam ou tenham direitos sobre conteúdos que incomoda o CEO do grupo Claro Brasil. Ele retoma uma discussão que há décadas é colocada na mesa e que sempre se mostrou de difícil resolução, até porque é o modelo que hoje garante a viabilidade econômica da grande oferta de conteúdos existentes nos diferentes canais pagos: o empacotamento de canais.

"O assinante quer contratar e pagar pelos canais que gosta. Pode inclusive pagar pela cauda longa, porque as pessoas têm gostos variados. Há canais de baixíssima audiência, mas que despertam o interesse de um público e precisam ser oferecidos, valoriza a nossa oferta. Mas do jeito que as coisas são hoje, não dá para fazer, porque somos obrigados pelo programador a levar um monte de canais para todo mundo, mesmo que o cliente queira só canal A ou B", diz o executivo. "Com isso eu empurro para o cliente um monte de canal que ele não quer, porque não tenho opção".

Félix conhece bem a indústria de TV paga no Brasil desde que ela nasceu, há quase 30 anos, e reconhece que esta conversa é difícil para os programadores. "Mas o fato é que alguns canais não deveriam existir, ou deveriam ser sustentados pela propaganda. Temos um modelo que precisa ser mexido visando essa realidade que está vindo por aí. É diferente da realidade de décadas atrás".

Ele reforça que o Brasil tem uma população de baixa renda e uma classe C, D e E gigantescas. "São milhões de pessoas. Mas só quem pode pagar pelo modelo atual é a classe A e B. Há gente de classe C que paga porque adora, mas se o modelo fosse mais adequado, se teria muito mais assinante", pondera. "Vejo todo mundo procurar o famoso pacote de baixo custo, há décadas, mas isso não existe, por causa do modelo. Por causa do SeAC. Por causa da reserva de mercado. Só consigo dar o pacote de baixo custo o que o cliente não quer. Nem canal aberto mais é de graça. Tem que sacolejar, acordar o mercado", analisa o executivo.

Aproximação

Félix diz que a tendência é que as suas operações de TV paga incorporem todos os provedores de conteúdo que estão hoje atuando na Internet, como Amazon, Netflix e Youtube. Todos acabarão entrando na oferta da Net e da Claro TV, quando os acertos comerciais e técnicos forem feitos. "Vai ser um mundo dominado por estrangeiros, e eu não tenho nada contra. Não somos nós (operadoras) que vamos sofrer, quem vai sofrer é o conteúdo nacional". Ele reconhece que a Lei do SeAC valorizou a oferta de conteúdos brasileiros nos canais pagos, mas lembra que o cenário competitivo mudou, e que a TV por assinatura precisa mudar suas bases tradicionais.

COMENTÁRIOS

1 Comentário

  1. Roger Karman disse:

    Oportuna e importante entrevista. "Sacolejar" o setor é preciso, ou continuaremos perdendo mercado. A TV por Assinatura continua sendo um excelente serviço, mas precisa mudar para se adaptar à evolução da tecnologia, que acarreta profundas alterações nos hábitos e necessidades do público. De fato (para variar…) é preciso aplicar a legislação vigente antes de tentar modificá-la. Mas, em minha opinião, é preciso mudar radicalmente a postura das programadoras. A atual política de "empacotamento" gera a sensação no assinante de estar pagando demais e de um grande desperdício. Acabou-se a fase de "quanto mais canais, melhor" ou mesmo de "quanto mais assinantes, melhor". A verdade é que o assinante está ficando mais seletivo e mais exigente, e tem outras alternativas. Imagino que o José Félix, como líder do setor, precisa ficar comedido. Mas, como um dos pioneiros desta indústria e apenas pequeno operador, atrevo-me a dizer: ninguém aguenta mais coisas como assistir a um filme ser interrompido 20 vezes por um mesmo comercial da Trivago, quando poderia assistir a uma série da Netflix sem interrupções. Cabe perguntar: alguém ganha com essa política burra? Não creio. Nem aqui nem nos Estados Unidos. Nem os operadores, nem os programadores. Qualquer pesquisa pode escancarar esses fatos. Quanto mais tarde os problemas apontados forem enfrentados, pior. Basta ver o que aconteceu e está acontecendo com o mercado editorial, que não soube adaptar-se aos novos tempos.

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