Rede submarina cresceu, mas Brasil precisa de backbone para escoar tráfego, avaliam ISPs

O "escoamento" de tráfego de Internet via cabos submarinos que chegaram ao País nos últimos anos vai depender sobretudo da construção de backbone e backhaul em cidades ainda não cobertas no interior e do surgimento de novas rotas regionais que atendam um perfil de tráfego mais "nacionalizado". Esse é o diagnóstico feito por provedores de Internet (ou ISPs) durante debate com players de cabos submarinos realizado na Futurecom. A avaliação é de que as conexões submarinas facilitam o acesso a conteúdos internacionais, mas para que o tráfego flua ainda existe um gargalo nas redes de transporte terrestres.

"Óbvio que o tráfego vai aumentar exponencialmente, porém a gente enxerga também uma saturação. Com a corrida das OTTs para colocar os conteúdos locais, dentro do País, isso diminui a demanda de buscar o tráfego fora do Brasil, deixando ele cada vez mais nacional", afirmou o CEO da operadora de atacado Altarede, Maurício Iezzi. Segundo o executivo, entre os provedores o volume de tráfego chega a ser 90% nacional.

"Por isso vemos demanda crescente do cabo submarino local, como nós usamos por exemplo para proteger nossa rede terrestre entre Espírito Santo/Rio de Janeiro, Rio/Fortaleza e Rio/São Paulo. A demanda que temos é nacional, para menor latência e resiliência", completou o CEO da Altarede, que tem GlobeNet e Telxius entre os fornecedores de capacidade.

Presidente da provedora regional Brisanet, José Roberto Nogueira, também afirmou que a capacidade instalada dos sistemas de cabos – sobretudo os que ancoram na Praia do Futuro (CE) – ainda deve ser suficiente por muito tempo. O quadro só mudaria de figura caso uma nova infraestrutura de backbone e backhaul passasse a atender cidades hoje descobertas do interior, sobretudo na direção de estados como Pará, Bahia ou do Centro-Oeste.

"A partir desse momento, os cabos submarinos terão uma nova alavancagem", afirmou Nogueira, destacando a necessidade da aplicação, em linha com o Plano Estrutural de Redes (PERT), dos recursos oriundos da migração das concessionárias de telefonia fixa para o novo modelo de telecomunicações.

Além da interiorização da infraestrutura ótica no País, players também citaram a necessidade de novas "landing stations" de cabos em demais pontos da costa. Neste sentido, a Seaborn, que opera o Seabras-1 (ligando São Paulo e Nova York), citou ramificação do cabo que deve chegar em Recife; dona do Malbec (que vai de São Paulo e Rio de Janeiro até a Argentina), a GlobeNet destacou a passagem do sistema que conectará também Porto Alegre.

Diretor regional da GlobeNet, Joselito Bergamaschine reconheceu que a operadora de cabos submarinos também têm observado uma "regionalização e nacionalização do tráfego, com o internacional diminuindo proporcionalmente". Segundo ele, entre 70% e 80% do tráfego registrado pela empresa é nacional.

"Mas por mais que exista a nacionalização, um país vai sempre ter que se conectar com o outro", destacou Bergamaschine, citando redes premium e o comércio eletrônico estrangeiro como elementos que não devem ser deslocados para o Brasil. Adicionalmente, o executivo também lembrou que a chegada do 5G pode reordenar a dinâmica do setor em uma medida que ainda não pode ser mensurada. "Se houver interesse de tráfego entrante e sainte no 5G, pode vir uma nova demanda (internacional)", lembrou.

Já para o CEO da Angola Cables, Antonio Nunes, deve chegar um momento onde os "provedores de conteúdo vão precisar disputar capacidade" no País, gerando um novo boom de infraestrutura submarina. Neste momento, o Brasil deve estar preparado para um "ciclo de exportação de conteúdos para o mundo, e não só importação". Vale lembrar que a empresa opera um cabo (o SACS) que interliga o País e a Angola, onde o consumo de conteúdo brasileiro é visto como oportunidade.

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