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Novos modelos de negócio: ameaça ou oportunidade?

Luiz Alexandre Garcia, presidente do conselho do Grupo Algar

O mundo dos negócios está mudando – e numa velocidade sem precedentes. Nessa efervescência, empresas tradicionalmente estabelecidas começaram a ver sua hegemonia tremer, mas só depende delas decidir se as novas tendências serão encaradas como uma ameaça ou oportunidade. Para as grandes organizações, escolher a segunda opção tem significado repensar profundamente o seu modelo de atuação, com a consciência de que os fatores que trouxeram sucesso até hoje não serão os mesmos que garantirão bons resultados e perenidade no futuro, nem mesmo em um futuro próximo.

Dentre as transformações recentes do mercado, posso destacar três modelos que têm ganhado cada vez mais força. O primeiro engloba os negócios em plataforma (como Uber, Airbnb ou iFood), que conectam prestadores e consumidores de uma forma simples, com elevado uso de tecnologia e inteligência de dados. O segundo são os negócios centrados na experiência e satisfação do cliente, que ganham espaço em um ambiente de competição crescente e com menos barreiras à entrada em indústrias tradicionais, como é o caso do setor bancário, sendo o Nubank um case relevante. O terceiro são os negócios exponenciais, categoria que engloba exemplos como Amazon, Netflix ou Spotify. Potencializados pelo uso da tecnologia e da conectividade, eles são focados na aposta do crescimento exponencial em grande escala, ainda que em alguns casos não tenham lucros imediatos.

Os impactos desses novos modelos sobre as grandes empresas já são uma realidade e não podem ser subestimados. Isso inclui o surgimento de um novo perfil de cliente, muito mais empoderado e disputado. Com tantas opções disponíveis, esses clientes têm hoje uma tendência muito maior de migrar para serviços que ofereçam melhor experiência e custo-benefício, uma demanda que tem feito as grandes organizações colocarem o cliente no topo de suas decisões e reavaliarem suas soluções e formas de atendimento.

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Outro ponto que as empresas tradicionais precisam repensar é seu processo decisório, que não pode mais ser engessado e lento. Seguindo as lições aprendidas com as startups e empresas de crescimento (scale-ups), elas têm investido em modelos de gestão com ciclos de decisão mais curtos, como a metodologia Ágil – e que também colocam o cliente no centro de tudo. Há, ainda, ensinamentos como a importância do desapego, a abertura para questionamentos e conversas difíceis, a ousadia e a mentalidade de “testar rápido, errar rápido e corrigir rápido”, trazendo dinamismo ao processo de inovação.

Essa, porém, não é uma via de mão única. As grandes organizações, por sua vez, também têm muito a oferecer e ensinar. Entre os ativos complementares que elas possuem em relação às startups estão: reputação estabelecida de mercado, valor de marca e reconhecimento; experiência e conhecimento acumulados ao longo de décadas; acesso a uma sólida base de clientes; capital inteligente (smart money), que é a possibilidade de financiamento atrelada aos benefícios de ter orientações de um negócio já estabelecido; networking, conexões, acesso a credores, parceiros, fornecedores e outros stakeholders de sua ampla rede de contatos.

Não é à toa que vem crescendo o número de parcerias entre empresas tradicionais e startups. Segundo dados da plataforma 100 Open Startups, entre maio de 2020 e junho de 2021 o número de acordos desse tipo quase dobrou, passando de 13.433 para 26.348.  A quantidade de companhias que buscaram startups saltou de 2.825 para 4.982 – aumento de 76%. Esses dados demonstram que esse tipo de união ganhou grande impulso com a crescente necessidade de digitalização desde o início da pandemia e que essa tendência veio para ficar, como uma resposta das grandes corporações à velocidade das mudanças tecnológicas. Hoje está claro que aquelas organizações que se fecharem em si mesmas perderão rapidamente sua competitividade frente à concorrência.

Tudo isso mostra que, para aqueles que souberem aproveitar as oportunidades, é um jogo de ganha-ganha. Mas é claro que os processos de evolução dos modelos de negócio não são simples e requerem muita energia e comprometimento. Em alguns casos, é até mesmo necessário canibalizar o negócio tradicional para permitir a evolução, afinal, o que era uma vantagem competitiva no passado pode simbolizar um atraso atualmente. O setor bancário é um ótimo exemplo: se antes ter a maior rede de agências era um diferencial, hoje isso se tornou um ônus em função do custo de manutenção destas estruturas, frente à crescente digitalização.

O maior legado que uma empresa pode deixar para seus acionistas e para a sociedade é gerar valor para todos os seus stakeholders (sejam eles colaboradores, clientes, fornecedores, credores, sociedade etc.) e buscar sua perenidade ao longo do tempo. Isso exige ser capaz de se reinventar, conectar-se com novos entrantes e se adaptar aos modelos de negócio que estão surgindo e às mudanças em decorrência disso.

Desde a fundação do Grupo Algar, há 90 anos, o empreendedorismo sempre esteve muito presente. Sendo assim, acreditamos que honrar nosso DNA empreendedor passa por estarmos continuamente em busca da inovação. Os negócios tendem a mudar com o tempo, e os desafios da sociedade a se atualizar constantemente, mas os valores que nos norteiam permanecem os mesmos. É assim que preservamos nosso legado, ao mesmo tempo em que aproveitamos ao máximo as oportunidades e ensinamentos que os novos tempos têm a nos oferecer.

*- Sobre o autor: Luiz Alexandre Garcia é Presidente do Conselho de Administração do Grupo Algar. As opiniões expressas nesse artigo não necessariamente refletem o ponto de vista de Teletime.

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