TV é software e precisa adotar práticas do mercado de software, diz consultor

Consultor Omarson Costa. Foto: Marcelo Kahn

Segundo consultor Omarson Costa, a TV, hoje, é software, e por isso deve adotar pessoas e metodologias correspondentes ao mercado de software, mudando seu modelo de negócio. Ele discorreu sobre o cenário de transformação dos serviços de vídeo, com o crescente lançamento de novas opções para o consumo e as tendências para o próximo ano, durante painel no Pay-TV Forum 2019, evento realizado pelas publicações TELETIME e TELA VIVA que teve início nesta terça-feira, dia 30 de julho.

Para reforçar sua tese, o consultor lembrou que a indústria da internet vem ganhando espaço, ao mesmo tempo em que a TV paga perde sua posição outrora dominante. "Se a base de assinantes está caindo, a receita também está. E, nesse caso, ela está indo para o modelo digital", explicou.

O consultor pontuou que, globalmente, o tráfego de vídeo foi para as redes de celulares. "Elas têm alcance global, são móveis e trabalham com um custo de entrega menor – e que deve cair ainda mais ao longo do tempo. Não tem como competir. O negócio da TV passa pelas redes IPs e vai mudar para as redes móveis", elencou. Diante desse cenário, Costa questiona a Lei do SeAC: "Por que as operadoras no Brasil não podem produzir conteúdo?". Ele lembra que já existem iniciativas nesse sentido na América Latina – é o caso da Telefônica e da Claro, por exemplo, que já estão se envolvendo nesse braço de conteúdo lá fora. "É claro que isso tem a ver com as leis vigentes de cada país, mas a tendência é essa verticalização, com as operadoras cada vez mais envolvidas nessa área do mercado", afirmou.

Para além dessa tendência, ele acredita ainda numa mudança de estrutura de serviços, com uma união dos pilares de música, cinema, home video e games: "Não existe mais interesse em empacotamento de conteúdos, e sim de serviços. Ninguém quer mais canais ou mais aplicativos, e sim todos os serviços de lazer que busca em um mesmo lugar". Hoje em dia, a penetração do streaming de vídeo nos EUA já ultrapassou a da Pay TV – são 69% contra 65%. A de streaming de música e de games aparecem logo atrás, com 41% e 30%, respectivamente. Tais dados, diz, comprovam que quem conseguir empacotar todos esses serviços em um mesmo lugar deverá sairá na frente.

Costa declara que a última fronteira do streaming é o esporte. Nos EUA, esse segmento já está se movimentando, com as ligas esportivas criando seus próprios aplicativos ou fazendo acordos com stickers, partindo para modelos direct-to-consumer. É o caso da liga de baseball, por exemplo. "Isso ainda não aconteceu no Brasil, mas é uma tendência que também deve chegar por aqui", disse. Vale lembrar que a Vivo tem acordo com a liga de basquete norte-americana NBA para oferecer streaming, inclusive para celulares pré-pagos.

Oferta atual

O consultor apresentou ainda um panorama dos serviços de streaming e como eles estão se diferenciando um do outro. Ele destacou o IMDB TV. O site de banco de dados de filmes IMBD foi adquirido pela Amazon e, agora, com a mudança de nome, está ganhando escala global. "Vale prestar atenção no fato de que é um serviço de streaming sendo chamado de TV", enfatizou. Trata-se de um case que está apostando no combo modelo de publicidade + expansão internacional, com a vantagem de ter a Amazon por trás. "O modelo de publicidade dentro do streaming está cada vez mais real e mais próximo. Só contar com o valor arrecadado com assinaturas já não basta", analisou. Outro exemplo que se destaca é a Disney+ e a Apple – ambas vão chegar grandes ao mercado e com potencial de conquistar bases cada vez mais fortes.

Um capítulo à parte é a Netflix, que dominou esse mercado sozinha por muito tempo. Em seis anos, ela fez algo sem precedentes na indústria em termos de expansão global. Hoje, ela só não está presente em três países do mundo: Síria, China e Coreia do Norte. "Em um ano, a Netflix fez o que a HBO demorou 40 para fazer", comparou. Mas o problema começa com o fato de que, atualmente, a empresa já soma uma dívida de bilhões de dólares. Além disso, pela primeira vez, ela tem visto sua base de assinantes diminuindo e, consequentemente, suas ações caindo. No último trimestre, 130 mil norte-americanos deixaram de assinar a Netflix, movimento sentido especialmente após o aumento do preço. "Agora, fica a dúvida se isso foi apenas um trimestre ruim ou o começo de uma crise. E, se for a segunda opção, o que vai acontecer com os demais OTTs entrantes no mercado? Como sustentar esse mercado e financiar o conteúdo? Se o modelo que trabalha com aquisição de base e aumento de preço para se bancar não for sustentável, quais serão os players que o sustentarão?", questiona Costa, batendo novamente na tecla da possibilidade das operadoras começarem a se envolver mais com produção de conteúdo.

Próximos passos

Costa divide o cenário em dois blocos de tempo: de 2010 a 2020 e de 2020 a 2030. No primeiro, segundo o consultor, o modelo de negócio que prevaleceu foi o SVoD, os "vencedores" foram Netflix, Amazon e Roku e, os "perdedores", as TVs lineares. Já no segundo, os modelos em destaque seriam SVoD e AVoD, com Amazon, Apple, Disney, Roku e as ligas esportivas como "vencedores" e, novamente, TVs lineares como "perdedores". "Cada país trabalha com sua legislação de TV, mas a internet ultrapassa essas questões. Dá pra lançar um app e rapidamente levá-lo a outros países, ou já colocá-lo no mercado com esse caráter global. O negócio do OTT é gigantesco e global, não tem como as TVs locais competirem", avalia.

Por fim, Costa reforça que um modelo de publicidade dentro do streaming está no horizonte próximo desse mercado, reitera a tendência do empacotamento de serviços, e não de conteúdos, e provoca: "Quem conseguirá entregar esporte, música e jogos em um mesmo bundle?". Para responder, ele deixa um quadro comparativo, mostrando que Apple e Amazon, por exemplo, já oferecem serviços de games, filmes, séries, esportes e música. O Google e a Disney aparecem logo atrás, deixando a desejar nos quesitos esportes e games e música, respectivamente. O Facebook, assim como a Disney, também não oferece games e música, enquanto a Netflix não tem nenhum dos dois e nem esportes.

"Se a TV vai virar software, os canais de TV serão transformados em aplicativos. Os modelos de negócio que vão prevalecer são por assinatura, à la carte ou com publicidade. E o conteúdo local e os esportes são as últimas fronteiras a serem conquistadas", concluiu.

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