Em meio a polêmicas, ICANN defende uso do DNS para 5G e novas tecnologias

[Atualizada em 30/01] A Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (ICANN) divulgou na semana passada um relatório no qual defende a utilização do DNS como ferramenta basilar para a arquitetura da Internet com a chegada do 5G, da IoT e mesmo de futuras gerações de redes. O documento, que pode ser baixado aqui, vem em um momento no qual se questiona o papel da própria entidade perante a interesses econômicos e políticos. A ideia da corporação é mostrar que o sistema é basicamente insubstituível – e, por conseguinte, a sua administração. 

O estudo, desenvolvido pelo principal technologist da ICANN, Alain Durand (com contribuições de especialistas da Nokia e da Ericsson), alega que, apesar dos avanços tecnológicos, o sistema de nome de domínio ainda seria a melhor solução. A entidade, como se sabe, tem gestão multissetorial (após um longo embate com o governo norte-americano) e administra esses sistemas. "A ICANN acredita que o modelo de uma Internet única, baseada em um sistema global de identificadores únicos, é a melhor forma de maximizar os benefícios que a Internet pode trazer", afirma o executivo no documento. Ele diz que há um "risco" de que o fatiamento de rede que operadoras pretendem utilizar com o 5G possa fragmentar a rede.

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Segundo a organização, com a chegada de cada nova tecnologia, há uma leva de projetos e pesquisas acadêmicas para "redefinir a rede para a 'Internet do futuro'". Ela diz que qualquer tipo de transição do protocolo IP deveria considerar um longo período de "décadas" de adaptação em uma operação de complexidade elevada. Assim, a ICANN afirma que "não parece haver uma necessidade clara para um novo sistema de identificação para aplicações clássicas orientadas a usuários no 5G". Na Internet das Coisas poderia haver casos que se beneficiem de novos identificadores, ainda que estes "possam ser implementados diretamente no DNS". 

O documento da ICANN foi divulgado na semana passada, em meio a uma série de críticas que a entidade tem sofrido porque não teria devidamente supervisionado a venda da agência Public Interest Registry, detida pela Internet Society, por US$ 1,1 bilhão para a Ethos Capital, uma empresa de private equity. Com isso, a Isoc estaria repassando o controle de todos os domínios .org, tradicionalmente abertos a qualquer interessado. 

O receio, levantado por entidades como Wikimedia Foundation e Electronic Frontier Foundation, é de que a Ethos aumente os preços dos registros .org, uma vez que a própria ICANN autorizou em junho passado a correção livre desse custo. Outra preocupação é a de que a empresa possa cancelar domínios por atividade ilegal – algo que governos autoritários poderiam usar para atacar ONGs. À imprensa internacional, a ICANN afirmou que não poderia bloquear a operação, algo que é desmentido em um post da própria entidade em dezembro, na qual diz que "qualquer transação que resulte na mudança do controle de um operador de registro" precisa pedir aprovação. Além disso, o órgão multissetorial recentemente decidiu garantir à gigante da tecnologia Amazon o domínio .amazon, embora diversos países sul-americanos – incluindo Brasil – tenham mostrado desagrado e preocupações. 

Cenários

O ponto levantado no documento elaborado por Durand é que os requerimentos de latência e cache do 5G são uma questão de operação e otimização da rede, mas não um problema de arquitetura. Assim, a ICANN recomenda que os caches de DNS para aplicações sensíveis à latência sejam instalados o mais próximo possível, e com um sistema de "pré-busca" agressivo configurado. O sistema de cache deve também ser distribuído para maximizar a eficiência. E as aplicações para IoT devem procurar minimizar a latência no DNS ao adaptar as aplicações para solicitar dados ao cabeçalho antes do estabelecimento da conexão. 

Um cenário aventado com o 5G é do fatiamento de rede (network slicing), que a entidade chama de "evolução" das redes de distribuição de conteúdo (CDN). A questão é que, a fim de providenciar uma qualidade de serviço para a aplicação, as camadas poderiam utilizar uma configuração proprietária de identificadores, endereço e nome de espaço. Assim, na visão da entidade e para "além de preocupações com neutralidade de rede", o network slicing poderia fragmentar a Internet de modo que, apesar de ser possível, o uso do DNS não é um requerimento técnico. A ICANN reconhece, contudo, que a padronização da tecnologia ainda está em etapas iniciais, e que não há indicação concreta que a fragmentação ocorrerá, classificando assim o risco como "baixo no momento".

Outro questionamento da corporação é a da própria utilidade da numeração de celular. Com o avanço de aplicações de voz em IP (como WhatsApp, Telegram e Facetime) ou mesmo em VoLTE, seria necessário novos identificadores baseados no DNS? E o IPv4 ou IPv6 ainda seriam relevantes? A ICANN diz que, para o usuário final, não será necessário um novo sistema de numeração no 5G, mas destaca que o DNS ainda será importante para a IoT, ainda que um novo "sistema de identificação efêmera" esteja sendo desenvolvido para endereçar o problema da quantidade de conexões previstas entre máquinas. 

Futuro além do 5G

A ICANN também cita um grupo de trabalho da UIT-T, o Network 2030 Focus Group, que pretende definir até novembro deste ano as bases do que seria um novo protocolo de rede na camada 3, que serviria como substituto ao IP ao ir além do modelo de "melhor esforço", entregando níveis de delay e jitter garantidos. Isso porque um estudo técnico da União Internacional de Telecomunicações teria indicado que o protocolo atual TCP/IP não seria adequado para futuras aplicações, como comunicações holográficas e máquina-à-máquina (com latências sub 10 ms). Por meio de um novo mecanismo de controle, a API permitiria a aplicações programar a rede diretamente antes de iniciar a transferência de dados, além de permitir agrupar fluxos de comunicações para que tenham o mesmo comportamento em caso de congestionamento. Uma terceira camada iria permitir o downgrade de alguns fluxos nesses casos de tráfego intenso. O Network 2030 é mais direcionado para infraestrutura fixa, mas "com um olho em arquiteturas de redes móveis além do 5G/6G".

A ICANN bate o pé ao declarar que alegações de que o TCP/IP não é adequado "ressurgem a cada nova tecnologia de rede de acesso", e defende que o histórico do protocolo de transporte mostra que é trata-se de um sistema eficiente e, portanto, a melhor abordagem para as futuras tecnologias. "Entretanto, talvez haja um futuro em que isso não seja mais o caso, potencialmente ao gerir conexões entre espaçonaves, planetas e outros objetos remotos", divaga Alain Durand no relatório. Ele justifica que qualquer desenvolvimento e padronização de protocolos tradicionalmente recaem sobre o Internet Engineering Task Force (IETF), e não na UIT-T. "Mais importante, qualquer tentativa de substituir o TCP/IP deveria provavelmente considerar prazos de décadas, e quaisquer benefícios teriam que compensar as complexidades e custo de tal transição."

O documento também considera a possibilidade de soluções não-IP sendo utilizados no 5G. A ICANN diz que seria possível, mas desde que restritas a redes privadas no mesmo controle administrativo. A corporação lembra que o release 15 do 3GPP já permitiria a conexão entre dispositivos na camada 2 ou na 3 por qualquer protocolo, desde que tivessem implementados stacks especializados – como no caso de M2M para a Indústria 4.0. Há ainda a possibilidade futura de extensões de Time Sensitive Networking (TSN) ao padrão IEEE 802.1 no release 16 do 3GPP. 

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