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Capitão América x Shang-gi: países precisam regulamentar conteúdo de streaming

“Eu quero tunar meu computador, porque o Fortnite fica lagando direto.”

“Pessoal, precisamos dar um up nas vendas, senão os revenues não vão bater a meta do quarter.”

“Você prefere Marvel ou DC Comics, Star Wars ou Star Trek?”

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Todos são diálogos corriqueiros e perfeitamente compreensíveis dentro de seus grupos sociais. O que eles têm em comum? Demonstram a profunda influência cultural dos EUA na vida brasileira a ponto de inundar a linguagem cotidiana com palavras, jargões, símbolos e produtos de consumo. E a indústria de entretenimento sempre exerceu um papel nesse fenômeno.

É relativamente conhecida a história do acordo entre o governo americano e Hollywood para disseminar valores tidos como tipicamente americanos pelo mundo afora como forma de contra-propaganda ao fascismo e ao comunismo durante a 2ª Guerra e durante a Guerra Fria. Depois do 11 de Setembro, o instrumento foi utilizado de novo, agora também recorrendo às séries de TV. Saem de cena comunistas malvados, surgem os terroristas suicidas.

Mesmo depois de derrotado o nazismo, o cinema seguiu como um instrumento cultural a ponto do inglês substituir o francês nos meios intelectuais e jovens brasileiros. Galicismos como enfant terrible, peignoir, porte-cochère deram lugar aos anglicismos com seus budgets, streamings, startups e smartphones.

O fenômeno não é só brasileiro. Os holandeses estão preocupados que seus estudantes universitários sejam tão proficientes em inglês que tenham um manejo menos desenvolto da própria língua-mãe, o holandês.

O fenômeno não é sequer inédito. A Ilha Britânica desde 55 a.C. vivia sob a sombra de Roma e foi invadida em 43 d.C., fazendo com que seus habitantes passassem a incorporar um monte de termos em latim ao vocabulário, sobretudo porque, ao contrário dos nativos, os romanos sabiam ler e escrever.

Os efeitos da globalização, acelerados enormemente pela conectividade da internet, provocam fissuras aparentes no conceito moderno de Estado nacional, de pátria, com consequências políticas e sociais ainda não totalmente estudadas por historiadores e cientistas sociais. Pense rápido. Quantos garotos você já viu na última década envergando camisas do Barcelona ou do Real Madrid em vez do time local?

Alguns países estão tentando reagir a essa lógica, sempre sob o olhar desconfiado dos globalistas mais entusiasmados. Vejam o caso da China, em que a internet é censurada e as Big Techs daqui não mandam por lá. Em vez de Amazon, tem Alibaba; em vez de WhatsApp tem WeChat; em vez do Capitão América, o herói nacional é Shang-gi.

Vou mais adiante. Os chineses agora estão mais reativos ao ocidente. A marca sueca de roupas HM andou dizendo que não utilizava algodão chinês por conta do tratamento dispensado por Pequim à etnia dos uygures, no oeste do país. Resultado: boicote popular à HM na China.

Mas será que o governo chinês está completamente errado ao evitar uma competição entre valores nacionais e valores de culturas estrangeiras?

MEU PAÍS, MINHAS REGRAS

Vamos mais diretamente ao campo do entretenimento. Na Turquia, quem domina o mercado é a plataforma de streaming local BlurTV, com o dobro de market share da Netflix, segunda colocada. É um dos poucos lugares no mundo onde a Netflix não é campeã de audiência. Mesmo assim, 35% da empresa foi adquirida recentemente pela Discovery Inc!!

Você pode estar aí argumentando: mas China e Turquia não são hoje exatamente estrelas da liberdade democrática no mundo. Verdade. E a França? A mãe das democracias liberais modernas, de onde vieram os lemas “liberdade, fraternidade e igualdade”?

Pois bem, a Comissão Europeia fez objeções ao projeto de traduzir dentro da França as regras para as empresas de mídia operarem na UE. Os franceses querem que a programação dos SVoDs, como a Netflix e a Amazon Prime, tenham 85% de conteúdo francês!

Quem se lembra do quanto as empresas aqui no Brasil fizeram barulho quando a  obrigou que as operadoras de cabo tivessem três, sim, só três horas de conteúdo de produção nacional em horário nobre ao longo da programação semanal? A Disney alegou que não tinha condições de fazer conteúdo local dentro dos seus padrões. Sério?

Será que os países citados acima estão todos errados? Que tal inverter o raciocínio. Quem acha que os norte-americanos concordariam em comprar um controle remoto (como o do FireTV) que viesse com um botão de acesso rápido a plataformas de conteúdo chinesas, como o Douyin, em vez dos da Netflix e para o Amazon Prime? Por que soa absurda a ideia para os EUA e para o resto do mundo tudo bem?

Tudo bem, a globalização supõe livre comércio, sem limite de fronteiras, mas faz sentido ser levado ao pé da letra? Os países, goste-se ou não, são frutos de séculos de vida social e econômica e de circunstâncias que estabeleceram seus padrões culturais. Uma empresa de outro país pode simplesmente ignorar suas raízes em nome do livre comércio?

Mas isso não é censura? Será? Digamos que uma montadora britânica, como a Rolls Royce, decidisse fabricar carros no Brasil. Ela venderia os modelos com o volante à direita só porque é assim que se faz no Reino Unido? Claro que não! Então por que no caso de conteúdo de entretenimento devemos abrir as porteiras sem qualquer tipo de regulamentação?

Ben Evans, um pensador e escritor norte-americano de ideias muito aguçadas, ecoa esse pensamento quando fala sobre as Big Techs e a ideia de se delegar a essas empresas a regulação do discurso. Diz ele: “será que vamos deixar nas mãos de empresas privadas a decisão de conceitos sobre o que é uma notícia, quem pode falar o que e onde tanto no Vale do Silício ou em Myanmar?”

Para ler mais sobre o tema: Demologia x tecnocracia, um debate que não pode ser adiado

Vamos levar em consideração também que as empresas atuando em conteúdo local ajudam a fomentar a economia local, dando emprego a produtores, roteiristas, atores, equipe técnica, time de marketing, etc. E o público recebe de volta, ao menos em parte, conteúdos que conversam com a própria cultura.

Neste quesito, o Brasil é um caso interessante porque tem um player produtor de conteúdo local muito forte, o grupo Globo. Na TV a cabo, as operadoras estrangeiras reclamaram, mas acabaram produzindo conteúdo local.

Essas regras, no entanto, não valem para o streaming. A Netflix, sob pressão na Guerra do Streaming, tem de investir em produção original e aqui no Brasil sofre a concorrência adicional dos produtos com o “padrão Globo” tão familiar para os brasileiros.

Resultado: houve um investimento importante de recursos em produções nacionais aqui nos últimos anos, com aproveitamento de elenco brasileiro em séries internacionais, bem como internacionalização de produções locais, como o recente Cidade Invisível, em que os personagens do folclore brasileiro atuam como heróis da trama. Em março, surgiu até o rumor de um acordo com a Globo para produzir uma novela.

Trailer da série Cidade Invisível, lançada em fevereiro de 2021, dirigida por Carlos Saldanha

A política chinesa de criar uma espécie de firewall entre a cultura ocidental e a sua surtiu efeito. Se os chineses de gerações anteriores admiravam valores americanos e lotavam os cinemas para assistir a blockbusters como Avatar, Titanic ou Transformers, atualmente os campeões de audiência são filmes como My People, My Country, que aborda sete histórias sobre o país, feito para celebrar os 70 anos da República Popular da China. Os chineses não pararam de tomar Coca-cola ou frequentar vez por outra o McDonad’s,  mas a comunicação de marca teve de mudar com os Millenials e a geração Z.

No meu entender, essa abordagem dos chineses (pensou que eu fosse escrever ‘approach’?!) está correta no diagnóstico de que é preciso dar espaço ao nacional, a tradições que estão ali por alguma razão que só cabe ao próprio país discutir. A China não se fechou para o mundo, pelo contrário. Compra e vende de todo o mundo. Mas se dá ao direito de continuar sendo “China”.

As plataformas de streaming, assim como Hollywood, não podem ter liberdade total, geral e irrestrita para ditar o que, quando e em que termos as pessoas em todos os países consomem cultura e entretenimento.

Legislações nacionais como a francesa são uma forma de preservar um espaço para a identidade nacional. Nem que seja por um argumento puramente econômico.

Recentemente estava sendo debatido no parlamento britânico (nada menos autocrático!) que empresas como Netflix e Amazon deveriam compartilhar dados de audiência com as TV britânicas. Afinal, a BBC é produtora de séries como Pinky Blinders e Bodyguard e teria direito de entender o desempenho delas nas plataformas de streaming até como forma de guiar futuras produções. A estimativa é de que 1.276 horas de conteúdo da empresa britânica estão disponíveis na Netflix.

Existem, portanto, motivos econômicos e culturais suficientes para justificar a existência de uma legislação com uma política de conteúdo mais clara feita por governos nacionais. Em tempo: Cidade Invisível, a série com saci, curupira e boto cor-de-rosa, esteve entre as 10 mais assistidas em mais de 40 países e já ganhou uma segunda temporada. Os streamings, sem sacrificar o modelo de negócio, podem ser também embaixadores da riqueza étnica e cultural do mundo.

Sobre o autor – Omarson Costa atua como Conselheiro de Administração, com formação em Análise de Sistemas e Marketing, tem MBA e especialização em Direito em Telecomunicações. Em sua carreira, registra passagens em empresas de telecom, meios de pagamento e Internet. As opiniões expressas nesse artigo não necessariamente representam o ponto de vista de TELETIME.

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