Aposta na BlackBerry pode não ser tão arriscada

O modelo do economista Ben Graham para investimentos de valor considera aportes de médio e longo prazos em companhias que se mostram bem dirigidas e com intensivas investigações sobre a saúde financeira. Uma regra é que é preciso ter análises e disciplina: se não há margem de segurança, não se deve investir. O CEO da Fairfax Financial Holdings, Prem Watsa, segue esta cartilha. O indiano radicado em Toronto, no Canadá, está por trás do consórcio que ofereceu US$ 4,7 bilhões na fabricante de celulares BlackBerry, e promete reerguer a empresa.

Watsa é um dos principais investidores do Canadá e, graças à sua disciplina, conseguiu se preparar para desafios grandes como a crise de 2008 no índice Dow Jones. Seguindo o modelo de Graham, o executivo procura companhias com ações desvalorizadas no mercado e, baseado em análises, investe nessas empresas. Isso garantiu que a Fairfax fosse a corporação canadense mais lucrativa naquele ano.

No cenário atual, a empresa é a maior acionista da BlackBerry, com 10% do capital comum. Coincidentemente (ou não), a fabricante passou por uma tempestade nos últimos dias. Ela já sofria consequências da baixa aceitação do sistema operacional BlackBerry 10 e, principalmente, do smartphone Z10. Mas o anúncio de previsão de perdas de quase US$ 1 bilhão no trimestre e de corte de 40% do quadro profissional no mundo foi basicamente a pá de cal na companhia canadense. Não ajudou nada a desastrosa liberação do serviço de mensagens BBM para iOS e Android no final de semana: o aplicativo vazou e acabou sobrecarregando os servidores da BlackBerry, que se viu forçada a paralisar a distribuição na App Store e na Google Play, ainda sem previsão de volta.

Após toda a turbulência, parece propício que Prem Watsa dê sua cartada para adquirir o restante das ações da companhia. Tudo indica que ele passará a focar ainda mais nos clientes corporativos, estratégia que, no frigir dos ovos, sustenta a empresa desde os anos 2000, quando chegou a ser líder em smartphones. Mas ele precisará desassociar a área de hardwares para poder reerguer a lucratividade da BlackBerry, ainda que grande parte do apelo das soluções de software esteja na integração com os dispositivos.

Entretanto, a reação do mercado foi branda ao anúncio da proposta. Às 18h15 (horário de Brasília), as ações da BlackBerry estavam sendo cotadas em US$ 8,81, alta de 0,97% no dia (após ter subido mais de 3%).

A própria Fairfax precisa de um desempenho melhor por parte da BlackBerry. A companhia anunciou em agosto uma perda líquida de US$ 157,8 milhões no trimestre, uma grande queda em relação aos ganhos líquidos de US$ 93,7 milhões durante o mesmo período de 2012. Na época da apresentação dos últimos resultados de 2013, Prem Watsa declarou que estava "preocupado com as previsões financeiras e econômicas do mercado", mantendo assim a posição defensiva de investimentos. Isso indica que é bem provável que Watsa não esteja arriscando tanto quanto parece ao investir na fabricante. Talvez, assim como em 2008, ele esteja conseguindo prever o que ninguém mais enxerga no mercado: um valor maior para a maior empresa de tecnologia do Canadá.

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