Vencedores e perdedores de um 2020 do entretenimento

Em qualquer retrospectiva de 2020, por maior que seja a vontade de "virar o disco", não dá pra ignorar que a pandemia pautou tudo à nossa volta. No entanto, ela aqui é só o "incidente excitante", como se diz nos roteiros de cinema, da nossa narrativa.

A necessidade de isolamento social gerou demandas de tecnologia por todo lado para tornar remoto o que antes se fazia presencialmente. Com muita gente em casa e menos ativa, o universo do entretenimento teve um ano marcante. Se o coronavírus foi o vilão, houve vencedores superpoderosos, patinhos feios e derrotados. O campo de batalha de 2021 deve ter uma configuração diferente. Vamos identificar quem é quem nesse enredo?

Streaming-mania

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Especialmente no segundo trimestre, no pico do isolamento, o consumo de entretenimento cresceu tanto que as autoridades na Europa pediram à Netflix para baixar a resolução dos conteúdos a fim de não sobrecarregar a rede. Esse dado é apenas um indicativo do quanto as plataformas de streaming ganharam terreno em 2020.

A Netflix, fundada em 1997, só intensificou seu processo de internacionalização em 2016 e fechou o terceiro trimestre de 2020 com 195 milhões de assinantes no mundo.

No Brasil, a Globoplay é líder, com 20 milhões de assinantes. Só não dá pra esquecer que streaming é um negócio de dimensões internacionais. Os players locais vão ter dificuldades de competir em escala nos quesitos produção e marketing, assim como facilidade de empacotamento e pagamento em uma só fatura. Sob esse ponto de vista, a oferta de um pacote conjunto Globo-Disney faz todo sentido para ambas.

É verdade que, com os estúdios parados, a Globo despejou "Vale a Pena Ver de Novo" aos montes no streaming. Mas compare: a Disney+ foi lançada em novembro de 2019 nos EUA e em menos um ano já mais de 86 milhões de assinantes no mundo. A expectativa dos executivos era atingir os 90 milhões em 2024 e agora já falam em 260 milhões! O poder de investimento em produções é muitas vezes superior ao de qualquer operação que dependa fortemente de um único mercado.

Ainda temos outros competidores com cofres largos, como Apple, Amazon, Paramount e a AT&T. O lançamento do HBO Max fez crescer a base de assinantes HBO para 36,3 milhões. Ao menos por hora, isso apenas compensa as perdas do canal a cabo, que foi de 2 milhões só no primeiro trimestre.

Vale mencionar como potenciais vencedores produtoras e artistas. Por que? É fato que eles foram atingidos duramente com a paralisação de filmes, séries e novelas. Você lembra que a novela das 9 da Globo Amor de Mãe exibiu o último capítulo inédito em 21 de março?!

A demanda reprimida em 2020 tende a se refletir positivamente em 2021. Só a Disney promete investir até US$ 9 bi em produções de suas marcas, incluindo o lançamento na América Latina da marca Star para agregar o conteúdo dos canais Fox. No Brasil, a Amazon promete mais seis séries locais, a Globo trabalha na estratégia de consolidar seu conteúdo. As produções inéditas podem aparecer antes no Globoplay que na TV aberta.

A Netflix não anunciou volume de investimento em produções brasileiras como no ano passado, mas colocará US$ 1 bi só no Reino Unido. Há rumores de que ela estuda entrar no mercado de telenovelas por aqui disputando o elenco global, que agora faz contrato por obra. Já pensou Fagundes ou Grazi Massafera, na Netflix?

À Espera de um milagre…

Mesmo com as pessoas consumindo mais conteúdo, a tendência mundial de queda de assinantes das TVs a cabo persistiu. Em muitos eventos no Brasil, dizia-se que nossa crise econômica era o principal fator de queda na base de assinantes. Fui um dos poucos a insistir e persistir na tese de que a TV a cabo entrou em fase de negação, aquela que antecede a morte. No Brasil, o streaming ultrapassou o cabo em assinantes esse ano, segundo a consultoria americana Bernstein, em uma razão de 17 milhões a 15,5 milhões. Essa tendência já vinha ocorrendo desde o ano passado em termos globais.

Segundo o ex-diretor de programação da DirectTV/AT&T Chris Long, em cerca de uma década haverá uma troca de guarda definitiva. "As pessoas vão perceber que podem ter tudo o que elas querem [no streaming] e abrir mão de possuir 180 canais dos quais só assistem a uns 12". Para mim, isto irá acontecer em 5 anos no Brasil. Em 2025, TV por assinatura (SeAC) será um negócio de nicho por aqui.

No Brasil, a TV a cabo tem um tíquete médio de cerca de 100 reais, com duas fontes de renda: dos assinantes e das verbas publicitárias.

Leia também: Fim de jogo para a TV a cabo?

A derrocada do cabo é uma péssima notícia também para outro meio que viveu um ano de terror: as salas de cinema. Os contratos das grandes produtoras sempre previram que os lançamentos demorariam um tempo até chegarem aos canais fechados. A partir do momento em que os blockbusters da Warner e da Disney chegam ao mesmo tempo no cinema e no streaming, para que a pessoa vai ao cinema? E pior, vai esperar meses até chegar no cabo?

Como fica a publicidade?

A publicidade sempre foi o modelo da mídia tradicional, incluídas aí as TVs abertas. Nos primeiros seis meses de 2020, foram investidos R$ 5,7 bilhões em publicidade, sendo a queda mais expressiva, a das salas de cinema. A TV aberta perdeu 29% dos aportes, enquanto os meios digitais foram os menos atingidos.

De acordo com pesquisa da PwC de 2020, por causa da pandemia de Covid-19 e da fragmentação dos hábitos dos espectadores, projeta-se uma retração global na publicidade para a TV aberta, de US$ 110 bilhões para US$ 106,8 bilhões, em 2024 no mundo todo.

As tecnologias de banda larga fixa (fibra ótica) e móvel (5G) vão facilitar a vida do streaming, tornando-se ainda mais atrativo para o mercado publicitário.

Não é à toa que a Samsung anunciou o lançamento de aparelhos de TV conectados que já vêm com um app Samsung TV Plus gratuito (ou seja, com publicidade) que traz 20 canais e promete acrescentar novos em breve. O que impede, por exemplo, um app como esse de licenciar eventos esportivos, The Voice ou o BBB, por exemplo?

O jogo não é só mais Globo x SBT x Record. O grosso da verba de publicidade no Brasil ainda é direcionado para as TVs (55% do total), mas elas vão ganhar cada vez mais a concorrência da Roku, da Amazon (Fire), Apple e até dos fabricantes de TV, como a Samsung. E isto irá acontecer no horizonte de 5 anos, conforme o avanço do 5G nos 5.570 municípios do Brasil.

Com a retomada da vida mais ou menos normal, a tendência é o streaming se consolidar como a plataforma preferida mundo afora.

A migração da audiência para o streaming fará o mercado publicitário se mexer, acelerando as perdas de receitas por parte de veículos tradicionais para os anunciantes. Isto já ocorreu com jornais e revistas, sendo a Abril o caso a não ser seguido. Vamos esperar que a TV aberta (Radiodifusão) não cometa os mesmos erros que os amigos da mídia impressa.

Fortes emoções ainda estão por vir. Prontos para a Temporada 2021 da Guerra do Streaming ?

* Omarson Costa atua como Conselheiro de Administração, com formação em Análise de Sistemas e Marketing, tem MBA e especialização em Direito em Telecomunicações. Em sua carreira, registra passagens em empresas de telecom, meios de pagamento e Internet. As opiniões do colunista não necessariamente refletem a posição de TELETIME

2 COMENTÁRIOS

  1. Os dados ainda estão rolando. O streaming precisará ser revisto em breve, porque ninguém quer ficar preso somente a um punhado de títulos oferecido apenas por uma ou duas assinaturas. Assim, para ter acesso à variedade, é preciso assinar vários serviços, o que pesa no bolso e acaba provocando um aumento significativo da pirataria. Ou seja, a pirataria está voltando, de novo, por causa do modelo de negócios do setor. Enfim , pirataria supre uma falha de mercado. Quanto à Globo, está investindo muito, adota posições arrogantes, mas não tem bala para enfrentar os concorrentes estrangeiros. Em breve veremos a Globo despencar, o que será ótimo para o país e para a democracia.

  2. Só uma correção! A Globoplay não tem de de longe 20 milhões de assinantes! Seguramente já possuem mais do que isso de pessoas cadastradas! Isso é fato! Mas a maioria consome o conteúdo gratuito o que para a Globoplay deve ser um terror pelo custo de banda! Assinares pagantes devem ser no máximo 2 milhões a 2,5 milhões de assinantes . Isso contra os 15 milhões da Netflix só aqui no Brasil que é o segundo maior mercado deles! Falta muito ainda para a Globoplay! Infelizmente!

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