A primavera digital da TV, 70 anos depois

Fábio Lima é CEO da Sofa Digital

Em setembro, quando a comemoração dos 70 anos da TV brasileira nos fazia olhar para trás, fomos atropelados por mais de uma dúzia de notícias que nos fazem olhar para a frente. Um mês que ajuda a definir o que será a TV nos próximos sete anos.

O Grupo Globo abriu, através da Globoplay, seus canais Globosat diretamente para assinatura pela internet. Pela primeira vez sem a mediação de um operador de telecom. Incluindo os canais de esportes, considerados a última fronteira da migração dos pacotes tradicionais de TV para a internet.

Anatel e Ancine confirmaram que canais lineares podem ser comercializados diretamente pela internet, dando fim a um arrastado processo entre Claro e Fox sobre o entendimento correto das leis e regulações do setor.

A Claro anunciou que também terá um serviço de TV por assinatura pela internet acompanhado de um dispositivo para conectar na TV, com canais lineares, Netflix e Telecine Play. Em 2022, quando forem discutir a renovação da concessão da Globo, esta já não será o ativo mais valioso da empresa, já em plena transformação digital.

A Disney testou um novo modelo de lançamento digital para compensar as perdas com cinemas fechados, e lançou Mulan, sua maior aposta do ano, exclusivamente para assinantes de seu serviço Disney+ nos Estados Unidos, com um preço adicional de U$ 29,90. Dados oficiais ainda não foram divulgados, mas empresas que monitoram o comportamento dos consumidores já apontaram que o sucesso foi enorme.

Cinema em dificuldade

O estúdio adiou todos os próximos lançamentos de cinema para o ano que vem, depois de constatarem o baixo desempenho das bilheterias na reabertura dos cinemas nos Estados Unidos. Outros estúdios acompanharam o movimento, e com isso, a maioria dos Blockbusters chegará aos cinemas apenas no próximo ano. O que dificulta ainda mais a vida dos cinemas por lá, e por aqui.

Setembro foi também o ultimo mês de conteúdo da Disney licenciado para terceiros no Brasil. No último dia 30, todo o catálogo da empresa que estava licenciado para TVs saiu do ar, bem como todos os títulos disponíveis para aluguel ou compra em plataformas digitais, DVDs e no serviço por assinatura da Amazon, o Prime Video. Até 17 de novembro, quando será lançado aqui o serviço Disney+, não é possível assistir aos filmes da Marvel, Pixar, Star Wars ou aos clássicos da companhia, que também controla ESPN e Fox Sports.

Para compensar a saída da Disney, a Amazon está avançando em seu modelo de "Channels", canais de Streaming por assinatura e sob demanda. Na segunda semana de setembro, anunciou o Prime Video Channels, modelo já bem-sucedido em outros países no qual o assinante pode adicionar outros canais e consumi-los dentro da plataforma. O serviço estreou com Paramount+, Starz Play, MGM, Looke e Nogging, e novos canais serão adicionados com frequência nos próximos meses. Nos Estados Unidos, já existem dezenas de canais sob demanda por assinatura distribuídos apenas pelo Prime Video Channels.

Este modelo também já está disponível no Apple TV e deve tornar-se a melhor alternativa para serviços de nicho, grupos de mídia com catálogos menores ou para empresas regionais que não teriam a mesma capacidade tecnológica que grandes grupos. Que grupos?  Globoplay, Netflix, HBO Max e Disney+, conhecidos como serviços de nível 1, ou seja, empresas que controlam muito conteúdo e possuem recursos para gerenciar a relação direta com o consumidor.

Modelo de canais

Em testes desde setembro, a Apple TV Channels disponibilizou ao público no dia 09 de outubro, o novo canal por assinatura sob demanda apenas com filmes de ação, suspense e terror, chamado Adrenalina Pura. O canal, criado pela Sofa Digital em parceria com a Califórnia Filmes foi lançado simultaneamente em toda a América Latina.

Neste modelo a Apple encarrega-se da cobrança, com segurança e privacidade dos dados dos assinantes, da interface compartilhada em seu super app Apple TV e, principalmente, da rede de dados com capacidade para entregar conteúdo com o mesmo padrão de qualidade. Apple e Amazon ficam com uma comissão para hospedar os canais em suas plataformas e assim viabilizam que canais de nicho de baixo custo possam existir, mesmo com poucos assinantes, desde que encontrem sua relevância no segmento.

A Viacom CBS anunciou a reformulação de todos os seus serviços e decidiu incorporar ao Paramount+ os conteúdos de MTV, Comedy Central, Showtime e Nickelodeon. O que vai engordar o catálogo do serviço e sua relevância. A empresa também deu detalhes sobre seu serviço de TV gratuita remunerada com publicidade, a Pluto TV, que já contará com 24 canais em seu lançamento em dezembro.

A aceleração recente do setor no país, em grande parte causada pelo crescimento do uso durante a pandemia, ajuda a entender o papel de cada empresa neste mercado e como elas se relacionarão. Inevitavelmente, até o fim deste ciclo, para serem bem distribuídos, mesmo os serviços de nível 1 terão grande dependência dos operadores de telecom e/ou das super-plataformas, como convencionou-se chamar Google, Amazon e Apple.

A empresa de Cupertino anunciou no dia 15 algo que ajuda a explicar porque, em algum momento, estes três serão a principal porta de entrada para qualquer serviço audiovisual no mundo. O Apple One é o primeiro pacote de assinatura de serviços que inclui cloud, música, games, notícias e TV. Pacotes de canais do Apple TV Channels também já foram anunciados e devem se tornar um modelo dominante em pouco tempo. A facilidade e a segurança do usuário para assinar com o modelo "add-on", e cancelar quando quiser, simplifica o processo e organiza a experiência do consumidor.

Pouca gente percebe, mas o Prime Video é na verdade um benefício "gratuito" para os assinantes do Amazon Prime, que garante frete grátis no e-commerce. A empresa de Seattle também tem seu próprio dispositivo de streaming, o Fire Stick TV, que ganhou novos modelos divulgados na última semana de setembro.

Dispositivos conectados

Para fechar o mês e dar cara definitiva ao destino da TV, no dia 30 foi anunciado o tão esperado Google TV, um renovado Chromecast com Android TV como sistema operacional e controle remoto por U$ 49,90. O Fire Stick foi anunciado por U$ 39,90. Ambos ainda não anunciaram preços para o Brasil.

Correndo por fora, apenas no segmento de dispositivos de streaming, a Roku, líder de mercado nos Estados Unidos, anunciou seu primeiro produto no país por R$ 349,90, o que pode ajudar a popularizar o novo hábito de consumo. O Apple TV mais barato custa hoje R$ 1.099,00. Além disso, o recurso de vender o hardware atrelado às assinaturas ou vice-versa, em pacotes do tipo compre um dispositivo e leve seis meses de assinatura grátis do seu serviço preferido, vai acelerar a adoção em massa nos próximos anos. Esta modalidade já está sendo praticada em larga escala no mercado americano.

No terceiro evento relevante do dia 15 de setembro, a Sony anunciou a sua saída do mercado de aparelhos de TV produzidos no Brasil, enquanto a Samsung anunciou no dia 23 a expansão do seu serviço TV Plus com 135 canais gratuitos para os usuários de celulares Galaxy. A empresa coreana se junta a outros gigantes do setor que estão na corrida pelos serviços de conteúdo gratuito remunerado por publicidade programática e inteligente, como as usadas na web. Em 2021 veremos muitos entrantes neste segmento.

Sim, o próximo big hit será a TV aberta online, com uma infinidade de canais. Horizontal e inteligente.

A TV fechada nunca teve mais de 20 milhões de assinantes no Brasil, enquanto o YouTube e a TV aberta atingem mais de 100 milhões de pessoas regularmente.

O Brasil será um dos cinco maiores mercados de vídeo online do mundo e, para garantir relevância em um ambiente tão competitivo em oferta, a produção de conteúdo nacional será essencial, ponto mais forte do Grupo Globo hoje.

Criatividade sempre em alta

Como criatividade não é commodity, a chegada de concorrência e a demanda por conteúdo relevante, fortalecerá o mercado de produtoras independentes, hoje fortemente afetadas pela pandemia e pela paralização do fomento público no setor. Ainda assim, talvez seja produzido mais conteúdo nacional na próxima década do que jamais foi produzido antes.

Em 24 de setembro, Reino Unido e Brasil lideraram, com 7 indicações cada, o Prêmio Emmy Internacional 2020, anunciado pela Academia Internacional de Artes e Ciências da Televisão. Ao todo, produções de 20 países estão na lista. A Globo concorre com uma produção do Projac e mais duas minisséries produzidas por independentes, além disso Netflix, HBO, Fox e Record também receberam uma indicação cada.

Ainda há muito por avançar, do 5G à regulamentação, da pirataria à educação do consumidor, mas o mês de setembro de 2020 pode ter sido a chegada da primavera digital na TV Brasileira, juntamente com a merecida homenagem a todos os profissionais que a trouxeram até aqui ao longo destes 70 anos.

* Sobre o autor – Fabio Lima é fundador e CEO da Sofa Digital, agregadora de dados e conteúdo para VOD. Graduado em Rádio e Televisão pela Universidade Metodista de SP, trabalha desde 2000 com tecnologias digitais para o audiovisual.

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