Nos EUA, cabo enfrenta guerra feroz em duas frentes

O mercado de TV por assinatura dos EUA se divide, nesse momento da indústria, em duas frentes de batalha. Em uma, na batalha do cabo vs. teles, a disputa é por redes de maior capacidade, com acesso à Internet em altas velocidades e serviços de voz, dados e vídeo ofertados de forma convergente. Em outra frente de batalha, cabo vs. DTH, a disputa é pela oferta de um maior número de canais em alta definição (HDTV). Essa é a primeira constatação de quem chega ao NCTA Cable 2008, o principal evento da TV a cabo (e da TV por assinatura como um todo) dos EUA, que acontece esta semana, em Nova Orleans.
Os números mostram que a TV a cabo segue perdendo clientes no seu principal serviço (vídeo), mas ganha market share na oferta de serviços de telefonia e ainda lidera o mercado de banda larga. Quem mais rouba clientes de TV paga das operadoras de cabo são as duas empresas de DTH, DirecTV (controladora da Sky no Brasil) e Dish. As operações de cabo estão presentes em cerca de 65 milhões de lares enquanto as operadoras de DTH totalizam cerca de 30 milhões de clientes. As empresas de telefonia Verizon (com o serviço FiOS TV) e AT&T (com o U-verse) somam mais de 1,3 milhão de clientes de vídeo, sendo um milhão para a Verizon e cerca de 300 mil para a AT&T. Ambas operam com tecnologia baseada em fibra óptica e ambas crescem a taxas superiores a 200 mil clientes por trimestre, o que significa que devem ter um market share bem mais significativo até o final de 2008.
Ao todo, somando ainda outros serviços de TV por assinatura com outras tecnologias, o mercado norte-americano é de 97,6 milhões de clientes de TV paga. O número de clientes de TV por assinatura servidos por redes de cabo, contudo, é o mesmo de dez anos atrás. Em 1998, o cabo tinha 85% de market share. Hoje tem 66%.

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Banda larga e voz

O jogo fica melhor para as operadoras de TV a cabo quando se olha os outros serviços, como banda larga, onde as empresas de cabo ainda crescem a taxas de 14% ao ano. Nesse segmento as operadoras de cabo totalizaram 35,6 milhões de clientes em 2007, em um mercado de mais de 62 milhões de usuários de serviços de Internet em alta velocidade. O market share das operadoras de cabo é de 55%, contra 42% das operadoras de telefonia com ADSL e fibra. O restante do mercado está com provedores que utilizam outras tecnologias.
Ao contrário do mercado brasileiro, onde as operadoras de TV a cabo estão limitadas à cobertura de apenas algumas centenas de cidades, nos EUA há operações de cabo oferecendo acesso à Internet em alta velocidade em 92% dos domicílios. O próximo passo da competição em banda larga dos EUA parece ser em relação à velocidade e mobilidade. Em abril deste ano a Comcast passou a oferecer o primeiro serviço de acesso à Internet "wideband", com infra-estrutura DOCSIS 3.0, que permite velocidades de 150 Mbps, em resposta aos serviços das teles por meio de fibra óptica. Foi a primeira operadora de cabo a oferecer esta capacidade. Outras devem seguir o mesmo caminho até o final do ano.
No quesito telefonia, a presença dos operadores de cabo também é cada vez mais significativa: 15,1 milhões de clientes contratam seus serviços de voz de operadoras de TV a cabo, número que cresceu 58% de 2006 para 2007 e cresce na casa de 1,3 milhão de clientes por trimestre. Ainda assim, as teles têm cerca de 83% do mercado de voz.

Disputa em HD

Já na disputa com os operadores de TV paga via satélite (chamados de DTH no Brasil e de DBS nos EUA), o que tem dado o tom da batalha é a alta definição e serviços avançados de vídeo. Hoje, dos 65 milhões de clientes de cabo nos EUA, 37 milhões assinam pacotes digitais, dos quais cerca de 14 milhões têm set-tops com capacidade para receber serviços em alta definição. Operadores de DTH, como a DirecTV, planejam ter ao final de 2008 metade de seus clientes com serviços de alta definição e com DVR (serviços de gravação digital). Hoje, a DirecTV tem cerca de 7 milhões de clientes com serviços de HD e DVR.
Existe também uma disputa por quem oferece mais canais em alta definição, e nesse quesito é difícil bater a DirecTV, que direcionou sua estratégia para isso e oferece 92 canais em alta definição. A Dish (que também opera em DTH) oferece cerca de 60 canais em HD. A operadora de cabo que hoje tem a oferta mais ampla é a Cablevision de Nova York, com 45 canais HD.
O diferencial das operadoras de TV a cabo na disputa pelo mercado de alta definição é a oferta dos canais locais de televisão. Como hoje o mercado norte-americano de TV aberta está praticamente todo digitalizado, há serviços em HD em todas as 210 regiões (nos EUA, as operações de TV aberta estão distribuídas por 210 áreas, ou mercados, chamadas de DMA – Designated Market Areas). Dessas regiões, há operadoras de cabo com serviço em HD em 209 delas. As operadoras de DTH ainda estão com canais locais em apenas 65 e 54 mercados, no caso da DirecTV e da DishTV respectivamente, com forte pressão da FCC para que essa cobertura se expanda. No caso do DTH, contudo, a oferta de programação local em alta definição é tecnicamente mais complicada em função dos elevados custos de satélite.
Outro ponto em que as operadoras de TV a cabo dos EUA têm se esforçado para se diferenciar das operadoras de DTH é na oferta de serviços de vídeo sob demanda (VOD, video-on-demand), que está disponível para praticamente todos os 37 milhões de usuários de cabo digital. Em 2007, foram distribuídos cerca de 3,3 bilhões de programas em VOD pelas operadoras de cabo. Já os serviços de DVR das operadoras de cabo chegam a cerca de 11 milhões de clientes.

Briga com a TV aberta

Já os programadores de TV por assinatura, que se beneficiam tanto das conquistas dos operadores de TV a cabo quanto das teles e operadoras de DTH nos EUA, não têm do que reclamar. Os canais das três principais redes abertas (ABC, CBS e NBC) e suas afiliadas têm hoje, nos EUA, 23% da audiência ao longo do dia (com picos maiores no horário nobre, mas que mesmo assim já perdem para os canais pagos em qualquer faixa do horário ou dia da semana). Ou seja, 78% da audiência diária é para canais pagos premium, canais pagos com publicidade, outros canais abertos e outras fontes de programação (canais abertos locais, PPV, VOD etc). E em 2007, pela primeira vez, os canais pagos que vendem publicidade tiveram mais de 51% da audiência nos EUA, segundo dados da Nielsen.

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