Leilão de 5G pressionou NII a encontrar comprador para Nextel

A perspectiva de um leilão para 5G no Brasil em 2020 foi um dos fatores que pesou na decisão da NII Holdings de encontrar logo um comprador para a Nextel no Brasil – a escolhida foi o grupo América Móvil, controlador da Claro Brasil. A empresa entende que precisaria levantar muito dinheiro para adquirir espectro em 5G. E, se ficasse de fora do leilão, perderia competitividade no mercado nacional. "Se não participássemos do leilão e todas as outras teles ganhassem 5G, o que isso significaria a longo prazo para a Nextel?", questionou o CFO da NII Holdings, Daniel Freiman, em teleconferência com analistas na manhã desta segunda-feira, 18.

Vários outros fatores e riscos foram levados em conta. Um deles é a condição pouco competitiva da Nextel frente às demais operadoras de grande porte que atuam no Brasil. A Nextel, além de ser aquela com a menor base de assinantes, é a única restrita ao serviço móvel, enquanto as demais oferecem um portfólio quad-play (Claro, Oi e Telefônica/Vivo) ou triple-play (TIM, que não conta com serviço de TV por assinatura). Para piorar, os concorrentes têm maior fluxo de caixa e acesso mais fácil a capital. A empresa reconhece que a competição é acirrada nos mercados mais atrativos do Brasil, como São Paulo e Rio de Janeiro, únicos mercados onde conta com operação própria de 4G com a faixa de 1,8 GHz (e, em alguns locais, com refarming de 2,1 GHz).

Na apresentação a investidores sobre a transação, a NII já justificava a venda ao falar que os resultados da Nextel melhoraram, mas havia riscos para o futuro da empresa se ela permanecesse sozinha na competição com as grandes e seus serviços convergentes, maiores capacidades de investimento, mais espectro e maiores recursos. Como reafirmou Freiman, a perspectiva de leilão de 5G para março de 2020, além da subsequente implantação da nova rede, demandaria novos investimentos significativos. Mesmo excluindo qualquer potencial gasto para implantação de 5G, a companhia precisaria levantar capital para o plano operacional atual e para o pagamento de endividamento até que o negócio tivesse fluxo de caixa positivo.

Pendências

Vale ressaltar que a Claro Brasil encontrará pendências na Nextel. A NII lembra que há o valor de R$ 409,5 milhões devidos à Anatel no leilão de espectro de 2016 para a faixa de 1,8 GHz em São Paulo. O montante é acrescido de reajuste mensal de 1% e tem amortização em seis pagamentos anuais, dos quais a primeira parcela será paga em julho deste ano, e a última em julho de 2024.

Além disso, a Nextel detém acordos com a Telefônica. O primeiro foi um contrato de roaming (chamado de "exploração industrial da rede móvel") de mais de R$ 1 bilhão, fechado em 26 de dezembro de 2013 (e anunciado em janeiro de 2014) e que previa pelo menos cinco anos de duração. Existia a opção de dois anos de extensão, e é evidente que o acordo foi renovado, uma vez que o presidente da Nextel, Roberto Rittes, confirmou na semana passada a já vigente expansão para uso de 4G em roaming. O segundo contrato com a Vivo é de compartilhamento de rede (RAN Sharing), datado de 22 de maio de 2016. No formulário enviado ao regulador de mercado dos Estados Unidos, a Securities Exchange Commission (SEC), a companhia não discrimina o que ocorrerá com esses contratos.

Proposta da América Móvil

A NII começou este mais recente processo de busca por um comprador para a Nextel Brasil no segundo trimestre de 2018. Conversou com mais de quarenta grupos de potenciais interessados, até chegar a uma lista pequena. Desta, apenas a América Móvil apresentou uma proposta concreta de compra, disse Daniel Freiman. O executivo revelou que houve uma outra proposta, mas não era firme e tinha valor menor.

No formulário enviado à SEC, a companhia entende que haverá aumento do valor empresarial até o final do acordo, que considerou ser "justo e razoável, entregando valor aos acionistas". Também diz ser uma "oportunidade única para monetizar o último ativo operacional da NII no contexto da potencial maré competitiva e financeira que a Nextel Brasil enfrenta como uma companhia sem escala e individual". Os novos limites de espectro determinados pela Anatel também são citados como "facilitadores" para a transação.

Por tudo isso, e diante dos riscos futuros de perder competitividade e de precisar levantar muito mais capital, a NII entendeu que a melhor saída era aceitar a proposta da América Móvil, que avaliou a Nextel em US$ 905 milhões. 

Reduzindo-se a dívida líquida de US$ 533 milhões no ato da assinatura do acordo de venda e considerando alguns ajustes no preço até a conclusão da transação, na prática os acionistas da Nextel vão receber US$ 421 milhões pela sua venda. Pela previsão da NII, eles terão entre US$ 1 e US$ 1,50 por ação ao final da operação, a depender da taxa de câmbio. Há potencial para a distribuição de valores adicionais aos acionistas, dependendo de como serão os procedimentos da recuperação de garantias da Nextel México e da operação do Brasil. Ressalta-se que, em caso de desistência da venda para a América Móvil, a Nextel precisará pagar uma multa de US$ 25 milhões ao grupo mexicano. 

A próxima assembleia de acionistas está marcada para o período entre maio e junho próximos, e a aprovação da venda será tomada por maioria de votos de titulares de ações preferenciais. A expectativa é de que, após aprovações regulatórias, a transação seja concluída ao longo de 2019.

Histórico

Analisando as movimentações recentes, a NII lembra que o processo de recuperação judicial (Chapter 11) da controladora nos Estados Unidos não resultou em uma transação para a Nextel Brasil. A etapa foi finalizada em junho de 2015, quando os diretores ainda falavam em uma "promessa de oportunidade de crescimento em longo prazo" após redução de gastos e enxugamento da estrutura de custos.

Tampouco foi bem sucedida a negociação com a norueguesa da AINMT/Ice Group, iniciada em fevereiro de 2017 e encerrada em julho de 2018. Assim, as opções estratégicas foram revisadas pelos investidores, que chegaram a considerar "múltiplas estruturas de transação", como a venda total e fusão. Foi decidido, por fim, aceitar a proposta da América Móvil.

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