As lições a extrair

Daniel Dantas, seu Opportunity e tudo o que girou em torno do que a Polícia Federal acabou qualificando de quadrilha se arrastam agora ?até o amargo fim? ? Bis zum bitter Ende, título alemão de um clássico sobre o nazismo.
Jornais e revistas que até há pouco ignoravam o assunto Opportunity ou divulgavam notinhas plantadas pelas assessorias de imprensa do ex-poderoso sem checar a veracidade da informação dedicam-se agora ao que chamam de jornalismo investigativo que, na verdade, não passa do pouco arriscado e lamentável hábito nacional de chutar cachorro morto.
Nós da Teletime enfrentamos desde 1999 o risco de, sempre dentro da ética profissional, apontar os desmandos de Dantas e seu grupo. Sofremos em conseqüência um total de cinco processos bancados direta e indiretamente pelas empresas dirigidas pelo Opportunity, além de um boicote de publicidade que também se refletiu no comportamento de muitos fornecedores que temiam obviamente represálias comerciais de operadoras como Brasil Telecom e Telemig Celular.
Foi difícil para uma pequena editora como a nossa sobreviver à pressão, submetidos que fomos até à bisbilhotice da Kroll. A bem da verdade, não fomos os únicos e muito menos os melhores no cumprimento do dever e do direito de informar assuntos de evidente interesse público. Vale aqui destacar nomes como Mino Carta e Bob Fernandes, na Carta Capital; Luis Nassif e Elvira Lobato, na Folha; sem esquecer o incansável Paulo Henrique Amorim, primeiro no UOL e na TV Cultura, passando agora para a TV Record. Todos eles processados ou coagidos em seus empregos, mas não se calaram. Recusaram-se a ser cooptados por Dantas como muitos outros.
Os jornalistas da Teletime deveriam se sentir felizes e orgulhosos neste momento. Mas não é esse o clima que prevalece entre nós. Ao invés do ufanismo, o sentimento que prevalece é de tristeza. E as perguntas recorrentes são: Como chegamos até este ponto? Como se permitiu a um aventureiro vender tráfico de influência a grandes grupos financeiros e a investidores estratégicos durante e depois do processo de privatização? Por que se admitiu a montagem de um esquema protetor e facilitador de interesses que atingiu instituições como a Anatel, a CVM, o Banco Central, a Receita Federal, a polícia e até juristas de renome?
Esses escândalos só agora afloram com clareza para todos. Foi preciso o maior banco do mundo, o Citi, ser forçado pelas circunstâncias a dizer que o gênio das pequenas espertezas que ele promovera a rei estava nu. E isto num tribunal de Nova York em que o juiz Kaplan ao ouvir as alegações de Dantas simplesmente declarou: ?Parece um assalto?.
Para quem acompanha há anos a história do ?opportunismo?, a reação de Kaplan foi semelhante à dos juizes Graham, Sanderson, Kellock e Smellie de Cayman ao constatarem que Dantas e seus asseclas mentiam nos depoimentos, fraudaram documentos, roubaram documentos e quebraram ordens judiciais. Esses fatos espantosos ocorreram ao longo de diferentes processos no paraíso fiscal sob jurisdição britânica em que um pequeno ex-associado de Dantas, o empresário Luís Roberto Demarco, infligiu pesadas derrotas ao seu oponente, fundamentais para o desfecho da história. Demarco, com recursos próprios, bateu de frente com alguns dos maiores escritórios de advocacia do Brasil, contratados a peso de ouro com os recursos das empresas administradas pelo Opportunity. Ele também não se intimidou com o exército de assessores de imprensa e outras figuras nefastas que rondam o jornalismo pátrio contratadas para desqualificá-lo. Sem falar da Kroll e outras violências. Last but not least, cabe também destacar a coragem e o empenho de vários dirigentes de fundos de pensão que se dedicaram a desfazer as maracutaias montadas às custas dos funcionários e pensionistas das estatais.
Se há alguma lição a extrair do episódio dantesco, além da lembrança dos casos de corrupção, sabujice, covardia, prevaricação e quase prevaricação de autoridades, hipocrisia e outras manifestações de baixeza humana, fica uma certeza inabalável: só a democracia e a liberdade de expressão conseguem repor as coisas no devido lugar. Para o setor de telecomunicações que começa agora a se preparar para a implementação dos novos contratos de concessão, impõe-se também uma missão: garantir que a história do Opportunity não se repita e a fantástica geração de caixa das grandes concessionárias de serviços públicos, com suas milionárias verbas de publicidade e comunicação, não seja usada para coibir o livre exercício do jornalismo e o direito que a sociedade tem à informação.

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