Arquitetura de redes e capacidade para upload em 4K ainda são desafios

Há outros elementos para entregar a experiência de conteúdo em 4K além da capacidade bruta da rede para operadoras, na visão de fornecedoras como Ericsson, Nokia Networks e Huawei. A experiência do usuário e a possibilidade de também enviar vídeo na resolução Ultra HD são desafios a serem enfrentados. Para tanto, investimentos em uma arquitetura mais inteligente seria o caminho, embora ainda haja a necessidade de infraestrutura ótica ou capacidade de agregar portadoras, no caso da rede móvel, o que torna a disponibilidade difícil em um país de proporções continentais como o Brasil.

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O gerente sênior de marketing da chinesa Huawei, Eduardo Amorim, justifica que a qualidade do serviço (QoS), como a rápida mudança de canais, o buffer e a "falta de pixels aparentes", influenciará na percepção da resolução Ultra HD. Para entregar o conteúdo over-the-top (OTT), Amorim cita a necessidade de haver preocupação com redes de entrega de conteúdo (CDNs) para diminuir o tempo de buffer, por exemplo. "Nenhuma operadora vai jogar fora o que tem (de infraestrutura) para ter FTTH", crê. A diferença estará na última milha. "O que vai ocorrer é que o gabinete de rua, que chega a 1 km de distância, será colocado a uma distância o menor possível, mesmo que o usuário receba acesso via par trançado, a capacidade será tão grande que ele conseguirá rodar 4K." Ele cita ainda desenvolvimentos que aumentam a capacidade com infra legada, como o cabo coaxial, com DOCSIS 3.1, e a tecnologia G.fast, utilizando o cobre.

Do ponto de vista de broadcasting, o gerente de marketing da Huawei acredita que haverá um aumento da oferta no mercado internacional, com lançamentos de programações em 4K da Deutsche Telekom e da British Telecom, além de operadoras no Japão, Coreia do Sul e China. "Quando isso acontece lá fora, no Brasil chega cerca de um ano depois, coincidindo com as Olimpíadas. O primeiro passo foi dado pelas OTTs, mas operadoras darão o passo relevante na Europa e na Ásia, e aí sim começarão a colocar mais conteúdo no contexto", analisa.

Amorim lembra que durante a Consumer Electronics Show (CES), em janeiro deste ano, em Las Vegas, a tendência de fabricantes de televisores foi apostar no 4K, colocando de lado o 3D. Ainda assim, ele argumenta que em telas menores do que 50 polegadas, o Ultra HD fará diferença maior na exibição do conteúdo em três dimensões, que atualmente sofre queda na qualidade (geralmente para 720p) pela necessidade de processamento maior. "No padrão Full HD, quando há esse corte na definição, a sensação é de que a imagem piorou. Em 4K, mesmo cortando pela metade, ainda vai ser uma definição maior do que Full HD", argumenta.

Outro ponto da percepção está na geração de imagens. O executivo da Huawei explica que os eventos esportivos são ideais também porque ocorrem de dia, e "tudo gera saturação de imagem para fazer valer a pena". Nisso, o usuário começa a perceber a diferença. "É importante ter esse realçamento nos eventos para animar os espectadores, é uma janela de entrada". Mas ele reconhece que há questões subjetivas, como a taxa de quadros por segundo (fps) maior: em cinema, essa taxa é de 24 fps, mas há demanda crescente para conteúdo em 60 fps, seguindo a tendência de games – o YouTube já oferece conteúdo nessa taxa. É o que a Huawei chama de "4K Real", que demanda largura de banda de pelo menos 50 Mbps, segundo estudo da fornecedora.

Upload é realidade ainda mais distante

A diretora de redes convergentes da Ericsson para a América Latina e Caribe, Andrea Faustino, explica que não apenas haverá um aumento na demanda para a rede fixa, mas também para o tráfego móvel, o que gera muito mais preocupação para operadoras. Não só pelo lado da reprodução de vídeos em Ultra HD, mas na geração de conteúdo, especialmente em tempo real. "O tráfego está migrando de multicast para unicast, e o streaming de vídeos está ficando cada vez mais longo, com usuários produzindo mais conteúdo com aplicativos como Periscope, do Twitter", diz ela. Em tempo: atualmente, tanto esse app quanto seu concorrente, o Meerkat, não são capazes ainda de transmitir vídeo em 4K.

O ponto é que haverá grande dificuldade em gerenciar esse conteúdo sendo enviado por redes móveis. Daí a necessidade de redes de gestão e entrega de conteúdo para garantir que não haja colapso. "O que eu vejo mais é a preocupação mais forte do mobile, de entregar conteúdo e garantir qualidade", diz ela.

Por outro lado, mesmo em linhas fixas, o upload ainda tem um longo caminho pela frente. O serviço de transmissão de jogos online Twitch tem capacidade técnica para streaming em 4K. No momento, contudo, a plataforma pode considerar uma taxa acima de 10 Mbps como "abuso do sistema", conforme declarou um representante da empresa no Reddit. Com taxas entre 80.000 Kbps e 110.000 Kbps, de acordo com o Twitch, ocupa-se a banda necessária para atender 50 outros usuários realizando um streaming comum em HD.

Assim, o problema atual não é só disponibilizar 4K para um nicho de usuários early-adopters, mas estar pronto para uma massificação em potencial. "A preocupação é fazer um setup inicial que garante escalabilidade de maneira inteligente, para poder fazer isso de forma otimizada, na medida em que os devices e conteúdos forem sendo disponibilizados. É mais um business case do que adoção de tecnologia", explica Andrea, da Ericsson. Ou seja: preparar a rede para entregar conteúdo 4K é relativamente fácil, o problema é conseguir monetizar junto.

Além do 4G

Mesmo tecnicamente, a entrega de conteúdo 4K em redes móveis se prova uma dificuldade com a tecnologia atual. O LTE usado no Brasil atualmente pode até conseguir dar conta, mas apenas para poucas pessoas por vez, conforme explica o CTO da Nokia Networks no Brasil, Wilson Cardoso. "Qualquer operadora com 10 MHz de espectro teria capacidade de oferecer 4K", diz. "Uma célula LTE tem em média 128 assinantes; multiplicados por 25 Mbps você chega em torno de 3,2 Gbps, e isso não se consegue com espectro de 20 MHz, aí teria que fazer agregação", declara, citando a possibilidade de usar o LTE-Advanced somando as faixas de 2,5 GHz com a futura banda de 700 MHz – ou, no caso da Oi, que não adquiriu esta última faixa no leilão do ano passado, com o refarming do 1,8 GHz.

Cardoso explica que em países com menor extensão territorial e densidade demográfica, como a Finlândia, é possível utilizar uma combinação de tecnologias para acesso: grandes centros com fibra, e LTE-Advanced para áreas rurais, com agregação de duas a três portadoras. "Aí começa a encontrar figuras de consumo de dados de tecnologia móvel típico de fixo, com cara consumindo 10 GB por dia – e nem é mais em tablet, é conteúdo para TV de grande porte, mesmo um PC dificilmente consumiria isso em 12 ou 24 horas", declara.

Para lidar com esse consumo tão alto, o executivo da Nokia Networks acredita que, mais do que pensar em infraestrutura, será necessário promover alianças. "Talvez com uma interação entre as operadoras e as OTTs, quebre-se um pouco essa barreira. Mas os dois lados precisam começar", conclui. "O próprio exemplo da Verizon (que fez acordo de peering com a Netflix nos Estados Unidos) é um bom exemplo. Claro que tem competição, mas, de certa forma, se ajeitaram."

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