Brisanet projeta investimentos de R$ 2 bi para locais com menos de 30 mil habitantes

José Roberto Nogueira, fundador da BrisaNet. Foto: Marcelo Kahn

A Brisanet foi uma das empresas mais agressivas no leilão de 5G, com lances de R$ 1,46 bilhão e a conquista de espectros importantes, como os lotes regionais no Nordeste e no Centro Oeste para a faixa de 3,5 GHz e o bloco de 50 MHz de espectro em 2,3 GHz no Nordeste. A empresa foi um dos primeiros provedores regionais a mostrar interesse no 5G e a sua atuação foi decisiva para a formatação final do edital.

Mas a agressividade da Brisanet nas suas ofertas (exceto a faixa de 2,3 GHz, pela qual a empresa pagou o preço mínimo) também levantou desconfiança de que a operadora possa ter errado a mão. Nesta entrevista, José Roberto Nogueira, CEO da empresa, explica que as obrigações que serão assumidas já estavam previstas no planejamento de negócios da operadora e não terão impacto adicional no Capex dos projetos. Investimentos, aliás, que devem ficar em R$ 2 bilhões para o cumprimento das obrigações em cidades e localidades pequenas, fora o que será investido para crescer e disputar as grande cidades, explica o executivo.

Nesta entrevista, Nogueira fala desta estratégia, da expansão para o Centro Oeste, consolidação no mercado de ISPs e de uma futura concorrência com os clientes que utilizarão as redes neutras da V.tal, entre outros temas

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TELETIME – O resultado de vocês no leilão era o esperado dentro da estratégia de vocês?

José Roberto Nogueira – O projeto da Brisanet já vem sendo desenhado há muito tempo. Nosso plano é fazer em todo o Nordeste uma infraestrutura de fibra até o final de 2023 com rede própria ou de franqueados e no final de 2022 as maiores cidades do Nordeste já estarão construídas, para em 2023 a gente sair para outras regiões. Com o leilão, ficou mais claro que a gente tem um plano voltado para o Centro Oeste. No 5G a gente pensa em avançar no Nordeste e, também, aqui no Centro Oeste.

Vocês deram um ágio muito expressivo para garantir os 3,5 GHz no Nordeste e no Centro Oeste. Vocês já disseram que ele será rocado por investimentos. Mas terá obrigações de cobrir cidades. Isso já estava nos planos atender a estas cidades?

Cidades não, localidades. A gente sempre teve o plano de atender distritos e áreas rurais. Tivemos muita preocupação porque se não houvesse localidades, o ágio teria que ser colocado na mesa. Por isso foi bom ter (contrapartidas) em localidades. Como elas já estavam no projeto Brisanet, fizemos a conta: 1.148 localidades a R$ 1,03 milhão, que é o valor por ERB, chegamos aos R$ 1,250 bilhão de ágio. Colocamos esse valor na mesa, que é o valor de construção das localidades, e isso virou compromisso até 2030. Mas vamos fazer antes. Essas localidades foram todas mapeadas já, foram georeferenciadas, e está no nosso plano de negócio. Inclusive as 2.767 localidades do Nordeste em obrigações do nosso bloco de 50 Hz na faixa de 2,3 GHz. E algumas coincidem com as localidades do 3,5 GHz, então temos um ganho de umas 500 localidades.

Vocês já estão se preparando para esse atendimento nas localidades?

Nos últimos 90 dias nós implementamos 394 sites em 394 cidades com 4G para cumprir nosso compromisso na frequência de 2,6 GHz (que a Brisanet já detinha desde o leilão de sobras, realizados em 2015), até para não ficar em débito com essa obrigação com a Anatel.

E vocês lançam quando esse 4G?

Está tudo instalado e agora com alguns usuários de teste, mas ainda não estamos vendendo para clientes porque estávamos esperando exatamente o leilão para fechar a estratégia.

Esses sites podem ser aproveitados para as faixas de 3,5 GHz e 2,3 GHz que vocês adquiriram?

Já são pontos instalados em localidades e a maioria direcionado para área rural ou distrito. Como a Brisanet tinha que assumir os compromissos de 2,6 GHz com FWA (banda larga fixa), e a gente não faz FWA, optamos por fazer fibra, essa cobertura (em 2,6 GHz) é para áreas rurais. Conseguimos entregar sinal por 4G em 150 cidades.

A instalação dessa infraestrutura em localidades vai custar menos do que o valor dos compromissos?

O verdadeiro custo está na fibra, no backbone e no backhaul até o site. E isso a gente já está fazendo, viabilizando com a oferta de banda larga fixa. Os sites de 4G (da Brisanet) já estão conectados à fibra ou estão a um enlace.

No final, qual vai ser o seu investimento para cumprir as obrigações do edital?

Até 2030, tanto o compromisso de atender cidades abaixo de 30 mil habitantes, o compromisso dos 3,5 GHz no Nordeste e Centro Oeste, o compromisso de 2,3 GHz… tudo isso vai demandar um investimento de R$ 2 bilhões até 2030. Mas esse investimento não inclui as cidades acima de 30 mil habitantes, que fazem parte da estratégia do nosso negócio. A Brisanet é uma empresa que vai atender das classes A a Z e cidades grandes, médias, pequenas, distritos e áreas rurais. Por isso a gente entrou na faixa de 2,3 GHz com muito compromisso. São 2.767 localidades (em 2,3 GHz), mais 1.148 (em 3,5 GHz), são 3.915 localidades. Para nós isso tudo é investimento natural, porque temos as fibras até o site e vamos investir no site conforme o calendário da obrigação, ou antes. Esses valores (de ágio) causaram um barulho, mas não tem impacto no Capex porque eram investimentos previstos já. E se não fosse assim corria o risco de deixar uma fratura exposta para um concorrente

Essa rede é a atual e a que está sendo construída, então?

Estamos em plena construção. A gente sempre chega nas cidades com redundância, às vezes com cinco fibras no caso das capitais, e nas cidades pequenas o nosso franqueado faz a capilaridade além da área urbana com fibra e rádio.

Em quantas capitais você já estão? E no Centro Oeste?

São sete capitais do Nordeste. Faltam Salvador e São Luís, e já estamos na periferia de Recife. Tudo isso está no cronograma para o próximo ano, e as cidades médias e grandes também. Para o Centro Oeste o plano é no final de 22 e começo de 2023 a gente conclua o FTTH no Nordeste e as primeiras implementações de 5G. Depois vem o Centro Oeste com fibra em 2023, e conforme for liberando o espectro vamos implementando as cidades, com parcerias, com o modelo de franquias.

Qual a vantagem de ter uma rede em 2,3 GHz para vocês? Melhora o problema de não ter roaming?

No 2,3 GHz a facilidade é em relação ao menor investimentos em sites. Já fizemos os testes e a penetração indoor ficou dentro do que a gente planejou, e isso traz uma redução no investimento que seria necessário se só tivéssemos levado o 3,5 GHz. Teria que colocar um determinado adensamento com 3,5 GHz, agora pode ser menor onde tiver 2,3 GHz. Já a questão do roaming, não só a Brisanet, mas todos os regionais, serão a quarta operadora, e vamos fazer uma agenda aqui em Brasília buscando junto para lutar por roaming, por exemplo. Será uma luta entre os ganhadores. Mas independente disso vamos trabalhar sempre por aglomerados de cidades ao fazer a cobertura, o que deve ajudar o nosso consumidor a poder se deslocar.

O fato de ter uma nova operadora em 700 MHz, a Winity, ajuda? Vocês pensam em parcerias com eles ou em usar uma rede neutra móvel?

Um dos objetivos deles, acredito, seja suportar os operadores regionais, e vamos buscar parcerias com todos. Ainda não estamos conversando com eles, mas com certeza isso vai acontecer.

O modelo de rede neutra fixa para vocês faz sentido? E como enxergam a entrada da V.tal em cidades onde vocês atuam com esse modelo?

Na nossa visão tem espaço para rede neutra, podemos fazer até uso, apesar de não estar no nosso planejamento. Mas pensamos que as redes neutras fazem mais sentido nos centros dos grandes centros. Em cidades pequenas e periferia das grandes cidades, já tem cinco ou oito redes nos postes, e oferta de serviços com preços muito baixo, ticket médio muito baixo, de R$ 39, R$ 49. Dificilmente um operador nacional, mesmo com rede neutra, vai ter viabilidade nessas localidades.

Ou seja, os grandes não competem com os pequenos em preço?

Hoje não, mas acreditamos também que o movimento de consolidação de pequenos provedores vá elevar um pouco o ticket, porque hoje estas empresas atuam com uma certa informalidade, no Simples, e ao ser vendido entra em outro regime tributário, e com isso sobe o preço médio. Vai chegar em um preço mais justo, porque $ 39 e R$ 49 não entrega a qualidade para o usuário hoje. A exigência dos usuários é muito maior.

Por que entrar no mercado móvel, que é muito mais arriscado, se vocês já estão bem estabelecidos na fibra?

Quando olhamos para a próxima década, não tem como não ter fibra e 5G. Um trilho é a fibra, o outro é a rede móvel, e os vagões são os serviços. Hoje são poucos vagões, mas vão ser centenas. O trem está aumentando, e precisa dos dois trilhos. Não dá para não pensar em duas tecnologias.

O que mudou na vida da Brisanet depois que vocês abriram em bolsa?

Não mudou.  A gente fala há muitos anos com investidores, e sempre tivemos a preocupação de não perder a autonomia ou sair do negócio. A empresa será Brisanet por gerações, e nesse pensamento é que a gente resolveu levar a empresa ao mercado, com percentual pequeno, para fortalecer a empresa no leilão e oferecer uma governança com maior transparência. Captar recurso a gente captaria com debêntures, mas ir ao mercado foi uma estratégia de fortalecer a empresa no longo prazo, ter mais controles na empresa. Prestar conta aos acionistas é positivo, porque é uma forma da gente estar escutar e, também, discutir a nossa estratégia, fazendo correções. Uma grande empresa não pode cometer erros.

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