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Olá, aceita um cookie?

Essa pergunta singela que remete aos doces tempos da infância esconde uma poderosa máquina que mudou a lógica de muitas indústrias e é responsável por sustentar boa parte da economia digital. Pouca gente se dá conta de que responder sim à pergunta do título é como se Smeagol colocasse O Anel e ficasse “visível” ao Olho de Sauron, no clássico de J.R.R.Tolkien.

Todo mundo que acha incômodo o modelo de paywalls (quantas vezes você tentou ler uma matéria na Folha ou no Estadão e acabou numa página de login para assinantes?) na grande mídia, não se dá conta de que foi o modelo de publicidade que sempre permitiu uma espécie de subsídio ao jornal, ainda no final do século 19, como conta Jason Whittaker em seu livro “Tech Giants, Artificial Intelligence and the Future of Journalism”.

Com o advento do rádio e da TV isso ficou ainda mais transparente. Afinal, as ondas de rádio e TV são concessões públicas, mas quem os tornou totalmente gratuitos foram os anunciantes.

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E o que eles queriam naquela época? Basicamente mostrar anúncios para quem estivesse interessado neles. Anúncios de fraldas para pais de recém-nascidos, anúncios de carros para quem queria comprar carro, de barcos para ricos. Não importava muito quem você era. O contexto era mais importante. Daí, anúncios em revistas de carros, ou programas de TV voltados para mulheres jovens. O custo do anúncio era atrelado ao volume de pessoas que ele poderia POTENCIALMENTE alcançar.

Sabe aquele ditado “o marketing é alma do negócio”? Como disciplina, o marketing surgiu em meados do século 20. Como prática, ele é milenar… Basta ir num mercado central de uma grande cidade moderna e você terá um gostinho da Antiguidade. O que quero dizer é: as práticas do marketing são antigas. Quer ver?

Quando eu era criança, eu e minha avó costumávamos ir na quitanda do seu Takeji. Íamos lá, fazíamos a compra da semana e ele anotava num caderninho, que era uma espécie de CRM dele. Tínhamos uma linha de crédito com o próprio quitandeiro (sem juros nem spread!!). Antes de irmos embora, ele anunciava que na semana que vem ia começar a chegar outra fruta da estação. Lembrou dos anúncios de Black Friday, que rolam em novembro, mas começam a martelar os seus olhos desde meados de setembro? Não é mera coincidência.

Saía da quitanda e passava na banca de jornal, onde meu pai havia aberto uma outra conta para eu poder pegar meus gibis sem precisar andar com dinheiro. Às vezes, nem estava com a intenção de comprar nada, mas ao me ver, o dono da banca avisava: “Chegou a nova revistinha do Chico Bento”. Ele me conhecia, sabia que tipo de produto consumia. Quando passava perto dele, era impactado pela propaganda. De certa forma, isso era um rastreamento. Só que em escala local.

E o cookie vira tecnologia…

Em 1994, um sujeito chamado Lou Montulli trabalhava numa startup (ainda nem usavam esse termo) chamada Netscape Communications, uma espécie de avô dos navegadores de internet. Naquela época, os websites eram incapazes de registrar o histórico de navegação de seus visitantes, o que tornava impossível coisas que hoje damos de barato na internet como o carrinho de compras. Cada página que você mudava, o site considerava você um estranho. Mais ou menos como se a cada visita ao seu Takeji ele perguntasse quem eu era e se gostava de maçã.

Montulli, na época com 23 anos, primeiro considerou a hipótese de dar uma espécie de CPF para cada usuário, mas a Netscape achava que aquilo seria muito invasivo. Foi quando ele resolveu escrever um pequeno arquivo de texto que o site visitado intercambiava com o computador do usuário. Assim nascia o cookie.

Não demorou muito os anunciantes passaram a produzir cookies também. Quando você entrava no site, seu computador recebia os arquivinhos do endereço visitado e dos anunciantes ou agências, os chamados cookies de terceiros. A Netscape sabia o risco daquilo, mas como o e-commerce ainda era incipiente e a web dependia de publicidade para dar certo, a empresa optou por criar dentro do navegador algumas ferramentas para dar ao usuário a permissão de controlar se queria cookies ou de quais sites não aceitaria.

Quando o Google apareceu em 1998, os cookies já eram fartamente utilizados na internet e ele passou a utilizá-los como forma de vender espaço de anúncio. Com o buscador como isca, a empresa foi acumulando uma quantidade gigantesca de informações. Caminho parecido com o adotado pelo Facebook depois. Não era mais o seu Takeji ou o jornaleiro da banca perto da minha casa que sabiam os meus gostos. O duopólio Google-Facebook sabe das informações quase do mundo inteiro, exceto da China, de onde foram banidos.

São os cookies que armazenam suas preferências e o papel dos atravessadores é comunicar suas preferências entre um site e outro, como se fosse o Smeagol seguindo seus passos sorrateiramente. Quando você faz uma busca no Google sobre tênis, dali a pouco a Amazon passa a te mandar propaganda e e-mails sobre promoções da Adidas e da Nike, enquanto o Facebook mostra da Puma e da Reebok. Com o sucesso do iPhone, a Apple também entrou nessa jogada.

Então, Apple, Amazon, Google e Facebook sabem da nossa vida até mais que nós mesmos, daqui a pouco. Não à toa, estão entre as empresas mais valiosas do mundo, sendo as três primeiras avaliadas em mais de US$ 1 trilhão cada.

Houston, we have a problem

Com o tempo, a Internet virou um balcão de negócios – com os nossos dados! Muitas empresas que vivem apenas e exclusivamente de captar dados e passar adiante. Estamos na plena era do Capitalismo da Vigilância (Surveillance Capitalism). Os especialistas em segurança digital pregavam no deserto há tempos sobre a necessidade de se regular a privacidade na rede.

Até que houve o escândalo da Cambridge Analytica, em que milhões de dados de usuários do Facebook foram tratados para enviar mensagens para eleitores, criando a suspeita de que pudesse ter sido responsável pela vitória de Donald Trump em 2016.

Pessoas afetadas pelo vazamento de dados do Facebook (Fonte: Facebook via Wikipedia)

A preocupação que a Netscape tinha lá atrás virou de repente uma prioridade para todo mundo. Dá até a impressão que só aí nos demos conta de que Smeagol havia virado o Gollum.

A Apple sempre adotou o conceito de “walled garden”, ou seja, quando você embarca no universo da maçã, ela faz de tudo para você manter todo o seu relacionamento dentro daqueles domínios. Desde o ano passado, o Safari instalado no iOS bloqueia cookies por padrão, embora você continue podendo controlar suas permissões de uso.

Para saber mais sobre walled garden leia meu artigo sobre as plataformas

O Firefox já fazia isso e a partir de janeiro de 2022, o Chrome vai aderir à prática. Quando entrar em vigor, quase 90% do público da internet que usa um dos três navegadores vai passar a não aceitar mais cookies de terceiros. Isso causa um impacto nas agências de propaganda, mas não afeta o Google, que detém 29% da verba publicitária e toneladas de informações sobre sua navegação. Não afeta também o Facebook, nem a Apple. Percebeu que estamos na mão das Big Techs?

Lembra que eu falei que Google e Facebook não conhecem os chineses porque o governo não deixou? Só que isso não quer dizer que os chineses estão menos expostos que nós. Se a penetração de smartphones é imensa no Ocidente, na China, eles são praticamente sua carteira de identidade. Quando se registra na operadora, por meio de um QR Code, você “entra no sistema” e o reconhecimento facial é obrigatório.

O governo chinês sabe aonde você vai, o que e onde compra, seu credit score inclusive. Se minha vó não pagasse o quitandeiro direito, talvez ficasse sem poder comprar no mês. Um inadimplente na China moderna não consegue sequer sair do país…

Reportagem sobre o sistema de vigilância na China. Fonte: BBC

LGPD é a salvação?

Diante da pressão, os governos se mexeram no mundo. A União Europeia aprovou em 2016 a GDPR, uma lei que dificulta a vida dos oligopólios tecnológicos como o Facebook. Inspirada nela, o Brasil aprovou a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que entrou em setembro de 2020.

O que a LGPD basicamente diz é que o consumidor é o dono do próprio dado. Ou seja, as empresas que coletam o dado (quando você se loga num site qualquer) ficam responsáveis pela guarda daquelas informações e só podem utilizá-la para as funções expressamente informadas ao consumidor quando ele aceita o termo de uso do site e por um tempo determinado.

Nem a LGPD nem a GDPR conseguem definir que tecnologia será usada para que o consumidor efetivamente controle todas as informações que as empresas sabem a seu respeito. Isso deveria ser um direito fundamental ou integrar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

No final das contas, não se trata de ideologia. Não importa se é um governo autocrático ou empresas de capital aberto. Queremos ser controlados em cada passo que damos, online e offline como se fôssemos espiados pelo Gollum atrás dos nossos preciosos dados? Saudades dos tempos da quitanda…

*-Sobre o autor – Omarson Costa atua como Conselheiro de Administração, com formação em Análise de Sistemas e Marketing, tem MBA e especialização em Direito em Telecomunicações. Em sua carreira, registra passagens em empresas de telecom, meios de pagamento e Internet. As opiniões expressas nesse artigo não necessariamente refletem o ponto de vista de TELETIME.

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