Inadimplência de empresas está maior do que entre pessoas físicas

Basílio Perez, diretor da Abrint

Fator de receio para o setor de telecomunicações diante da pandemia do novo coronavírus (covid-19), a inadimplência entre os provedores regionais de Internet (ISPs) está sendo mais sentida entre clientes corporativos do que nos contratos residenciais, sinalizaram associações representantes dessas empresas, fornecedores e analistas.

O diagnóstico foi compartilhado pelo diretor da Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações (Abrint), Basilio Perez, em conferência com fornecedores transmitida pela Internet nesta terça-feira, 5. "A inadimplência não está ocorrendo tanto nesse primeiro um mês e meio", afirmou o dirigente. "Ela está mais [concentrada] entre empresas e pequenos comércios, que têm pedido renegociação de valores. Já o usuário de casa tem pagado direitinho, pelo menos por enquanto".

Ainda assim, a Abrint segue alerta com o indicador, sobretudo se a crise do coronavírus perdurar, afetando os níveis de emprego do País. "Pode existir uma inadimplência que não estamos vendo ainda, pois o governo tem dado ajuda emergencial e protelamento de impostos. Em um primeiro momento está tudo bem, mas pode existir reflexo lá na frente", analisou Perez.

Até o momento, o mercado tem sinalizado uma forte alta na demanda por banda larga fixa desde o começo do isolamento social, o que pode estar protegendo a adimplência do segmento – ainda mais se considerado o caráter essencial do serviço durante a pandemia. "A demanda está sendo muito alta entre os provedores, e mesmo quem estava cancelando o serviços, 'descancelou'", afirmou o diretor da Abrint.

Impacto maior para pequenos

De acordo com um analista de mercado ouvido pelo TELETIME, a situação da inadimplência corporativa é, de fato, o que seria o maior problema para o setor. "Principalmente o pequeno e médio empresário. O negócio dele está fechado, como é que ele vai pagar conta [de serviços de telecom]?", indaga. Embora reconheça que o segmento de PME não tem um peso tão grande quanto o varejo para as grandes operadoras, lembra que há provedores regionais dedicados apenas a esse tipo de cliente. "Quem é muito focado no corporativo, seja no nominal ou no percentual da receita, vai sofrer mais."

Na visão do analista, porém, as propostas legislativas, em níveis municipal e estadual, para manutenção do serviço para clientes inadimplentes, não deverão seguir em frente. "Pode até assustar em um primeiro momento, mas vão concentrar em uma comarca só, em uma esfera específica. Causa mais susto do que efetivamente um efeito colateral ad eternum."

Para o presidente da associação de operadoras competitivas TelComp, João Moura, esses projetos de lei causam transtorno. "A inadimplência tem sido turbinada por manifestações políticas que meio que incentivam a não pagar", disse ele ao TELETIME, afirmando que o poder público estaria passando a mensagem à população de que a inadimplência não seria problema.

Mas o executivo concorda que o mercado B2B é o maior problema de inadimplência. "Nossa base maior opera no mercado corporativo. É nele que estão acontecendo pedidos de renegociações, pois o pessoal está com escritório vazio e atividades suspensas", diz Moura, citando setores como de shoppings, hotéis, cadeias de restaurante. "São vários de renegociação, parcelamento e postergação."

Moura acredita, entretanto, que esse problema seja contornado em alguns meses. O presidente da TelComp espera que, na medida em que escritórios voltem a abrir, vai haver um aumento na demanda por serviços de telecomunicações, com links dedicados e mais robustos. "A gente percebe que a onda da transformação digital se acelerando em função da crise, vai gerar um aumento de demanda sustentável." A questão, alega, é o "desencaixe" do fluxo de receitas com a inadimplência justo no momento em que há dificuldades operacionais para manutenção e reforço da rede.

Fornecedores

Participando da mesma conferência online (promovida pela RTI) que o dirigente da Abrint, a distribuidora de equipamentos WDC Networks também afirmou que "surpreendentemente" tem visto uma demanda em alta entre os provedores regionais. "No mês de abril nós batemos o recorde de vendas de unidades de rede ótica (ONUs), com crescimento de quase 30% em relação a março. Passamos de 100 mil ONUs comercializadas", afirmou o diretor de marketing e vendas da empresa, Junior Carrara.

A distribuidora também afirma que o abastecimento de produtos está sob controle; avaliação similar foi feita pela fornecedora de equipamentos óticos Furukawa, que afirmou não ter atravessado problemas do gênero (a empresa não paralisou a operação fabril).

Por outro lado, o diretor comercial da Furukawa, Celso Motizuqui, observou que a fabricante teve que agir para contornar restrições relacionados ao crédito. "O setor bancário no momento da crise deu uma freada, então conversamos com os agentes e aumentamos nosso crédito próprio para provedores", afirmou.

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