Para Astrium, organização da cadeia industrial é chave para sucesso de programa brasileiro

A francesa Astrium tornou pública a sua participação no processo de escolha do Satélite Brasileiro de Defesa e Comunicações Estratégias (SGDC), projeto para o qual o governo já reservou R$ 716 milhões. A favor da companhia pode pesar o fato de não estar ligada ao governo americano, o que permite à empresa propor condições de transferência de tecnologia sem as amarras colocadas pelo International Traffic in Arms Regulation (ITAR) norte-americano. Pelo ITAR, as tecnologias americanas relacionadas ao setor aeroespacial não devem ser compartilhadas sem o aval do Pentágono.

Outro ponto a favor da empresa é que a Astrium é a empreiteira principal (prime contractor) do foguete Ariane 5 – que alcançou a marca de 54 lançamentos bem sucedidos e detém metade dos lançamentos mundiais de satélites geoestacionários. O fato de também produzir o foguete pode colocar a empresa em condições de vantagem, já que os interessados deverão apresentar propostas que incluam o artefato (satélite) e o lançador.

A Astrium não ser regulada pelo ITAR não significa, entretanto, que a empresa não deva obter a aprovação dos países donos das tecnologias que farão parte do que será oferecido para o Brasil. "A tecnologia que é do país 'A' tem que ser autorizada pelo país 'A'", afirma o vice-presidente de lançadores e novos negócios da Astrium, Silvio Sandrone. A empresa confirma o interesse na licitação brasileira, mas não dá nenhum detalhe do que poderá constar da proposta de transferência tecnológica. "Assinamos um acordo de confidencialidade com o cliente em potencial e como é um processo competitivo é um pouco complicado ir muito em detalhes", explica Jean Nöel Hardi, vice-presidente para a América Latina. Segundo ele, a proposta será entregue ao governo brasileiro "nas próximas semanas".

O satélite brasileiro está previsto para ser lançado até o fim de 2014. O prazo é tido como curto para que o Brasil possa avançar na questão da transferência de tecnologia. O que provavelmente será possível de se fazer é o envio de técnicos para acompanhar a fabricação do satélite.

Foguete

O foguete Ariane 5 é um projeto da Agência Espacial Europeia (ESA) delegado à Astrium. De acordo com Sandrone, a construção do Ariane 5 envolve 64 fornecedores de 12 países diferentes, o que exige uma capacidade grande de gerenciar todos esses contratos. Para o executivo a questão-chave para o Brasil não é tecnológica, mas sim política e organizacional. "No setor aeroespacial, a continuidade do programa depende de vontade política. O fator que vai fazer a diferenciação é a capacidade de organizar a cadeia industrial", diz.

A companhia recentemente assinou acordo com a ESA para o desenvolvimento do Ariane 5 ME (Midlife Evolution) e Ariane 6. O Ariane 5 ME terá capacidade 20% maior que a atual e tem o seu voo inaugural previsto para 2015 ou 2016. Já o Ariane 6 deve entrar no segmento de satélites de médio porte que hoje são lançados pelo foguete russo Soyuz e deverá ser lançado no começo da década de 2020. A ESA destinou inicialmente 108 milhões de euros para os dois projetos.

Segundo Sandone, o Brasil deveria concentrar os seus esforços no desenvolvimento de foguetes capazes de lançar satélites de observação da Terra na faixa de 300 kg a 400 kg. "Esse mercado é muito maior que o geoestacionário", diz ele. Na verdade, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) tem um projeto em parceria com a DLR, a agência espacial alemã, para desenvolver o Veículo Lançador de Microssatélites (VLM) que entraria justamente nesse mercado. "O Brasil e a DLR tem tecnologia para entrar nesse segmento", diz ele.

Se o assunto é cadeia industrial, a Astrium sabe bem como ela é complexa no ramo aeroespacial, em que a palavra-chave é cooperação. Assim como o foguete Ariane que envolve empresas de 12 países, a fabricação dos satélites de comunicação também é feita de forma descentralizada dentro da companhia. A plataforma mecânica dos satélites é produzida em Stevenage, na Inglaterra. O site em Bremen na Alemanha é responsável por desenvolver o pay load (carga útil). A integração e os testes, entretanto, são realizados no site de Toulouse, na França.

A Astrium tem 25% do mercado de satélites de comunicação e foi responsável pela produção do primeiro artefato a operar em banda Ka, adquirido pela Eutelsat e lançado em dezembro de 2010 pelo foguete Proton.

A fabricante é uma subsidiária do grupo EADS, que também controla a Airbus, a Cassidian (divisão de equipamentos para Defesa) e a Eurocopter (fabricante de helicópteros). De acordo com o balanço divulgado no último dia 27, o grupo faturou no ano passado 57 bilhões de euros, 15% a mais que em 2011. A Astrium também comemorou resultados positivos: crescimento de 17% na receita, que chegou a 5,8 bilhões de euros, e é a terceira maior companhia do setor aeroespacial, atrás das americanas Boeing e Lockheed Martin.

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