No 'pós-pandemia', streaming sofre com queda de base, senhas compartilhadas e pirataria

Foto: Bruno do Amaral

Passado o momento de explosão de consumo de conteúdo, o streaming agora enfrenta novos desafios. O cenário é complexo. No Brasil, 2,4 milhões de lares contratam apenas TV paga (número que teve uma queda de 23% entre 2015 e 2022); 12,1 milhões têm TV paga e streaming (em um crescimento de 10 a 17% no mesmo período); 18,4 milhões possuem apenas streaming (aumento de 14 a 25%). Já o fresh market, isto é, domicílios que não assinam nem TV paga nem streaming, foi de 53 a 55%, chegando hoje a quase 40 milhões de lares. 

Os dados foram apresentados nesta quarta-feira, 3, por Christian Peralta, diretor da BB Media, empresa especializada em coleta de dados e pesquisa de mercado, que monitora atualmente mais de 3,4 mil plataformas ao redor do mundo. O executivo participou do PAY-TV Forum 2022, evento organizado por TELA VIVA e TELETIME, falando dos atuais desafios e o cenário competitivo do mercado de TV por assinatura e streaming. 

Segundo ele, a penetração do consumo de conteúdo online no Brasil obviamente cresceu – esse aumento foi de 24,7% de 2017 a 2021. "Nos últimos cinco anos, impulsionados pelo crescimento da internet e maior penetração de banda larga no país, os conteúdos online passaram a ser mais consumidos, atingindo hoje 85% dos lares", pontuou Peralta. Todos os modelos de negócio cresceram, com destaque para o AVOD (incluindo YouTube), que cresceu mais de 100% em número de horas assistidas, e SVOD, com 29%. 

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Presença consolidada das plataformas 

É claro que a situação da pandemia impactou esse crescimento. As pessoas ficaram mais tempo em casa e, com isso, tiveram mais tempo para assistir aos conteúdos. No período, também foram lançadas diversas plataformas de streaming no território nacional, como HBO Max e Disney+, por exemplo. "Período de lançamento costuma ter muito sucesso. Além disso, as plataformas investiram muito em publicidade nos últimos anos, principalmente na pandemia, o que também contribuiu para os bons resultados", apontou o especialista. 

E o consumo aumentou não só em relação ao número de horas, mas também de serviços. Em 2018, a média de plataformas contratadas por domicílio no Brasil era de 2,68. Em 2022, esse número já é de 3,30. Neste ano, estão contabilizadas pela BB Media 86 plataformas relevantes no país, com pelo menos mais 168 aguardando para entrar nessa lista. A título de comparação, em 2019 esse número era de apenas 28. 

Impactos negativos no pós-pandemia 

Com a flexibilização das restrições e a queda dos casos e da gravidade da Covid-19, os hábitos de consumo começaram a mudar. As pessoas voltaram a sair – o que significa que elas passaram a ficar menos em casa, assistindo a conteúdos de TV e streaming, ao mesmo tempo que voltaram a direcionar seus gastos para atividades fora, como cinema, teatro, restaurantes, academia e shows. O cenário de menos tempo e outros gastos soma-se ainda à desvalorização de algumas moedas e ao aumento da pirataria, e a consequência percebida é a queda de usuários na maioria das plataformas e o crescimento do sharing, isto é, de usuários que compartilham um único login e senha de determinado serviço. Vale colocar ainda nessa equação o aumento do consumo AVOD, que começou a crescer nos EUA e, agora, também sobe na América Latina, incluindo o Brasil. 

A queda no consumo já é uma realidade: enquanto em 2021 a penetração do consumo de conteúdo online no Brasil sob domicílios conectados era de 86%, nos primeiros quatro meses de 2022 esse número já caiu para 82%. A situação do compartilhamento de senhas também já chama a atenção, aparecendo em 40% dos usuários de Netflix e HBO Max; 39% no Globoplay; 35% no Disney+; 33% no Star+ e 24% no discovery+. 

"As plataformas estão tentando fazer mudanças ao notar que as pessoas estão cada vez mais compartilhando senhas. Elas já entenderam essa problemática. Esse compartilhamento é o que na TV linear chamamos de pirataria", declarou Peralta. 

"Acredito que essa retração seja um processo pontual. As pessoas não podem e nem querem pagar por muitas plataformas – a segmentação está bem grande, só a Disney já se divide em mais de uma plataforma. Os diferentes fornecedores terão de entender esse cenário e ajustar suas estratégias. Um bom caminho é o advertising, com opções de planos com valores mais baixos e inclusão de publicidade", opinou. 

Pirataria segue como a grande vilã 

Todos esses fatores – preços mais altos, crise econômica, novos hábitos de consumo – criam oportunidades para os piratas. E os números são alarmantes: 13,15 milhões de domicílios no Brasil consomem pirataria online, o que representa 36,41% dos domicílios conectados. O acesso web é o meio mais utilizado (21,5% dos domicílios conectados) seguido pelo live streaming (16,51%) e pelo IPTV (8,14%). Um dado contraditório é que 41,66% dos domicílios que consomem pirataria online tem algum serviço de TV por assinatura contratado. 

O consumo de pirataria online por IPTV Box representa 703 milhões em perdas anuais mínimas para o país. Atualmente, a BB monitora 479 plataformas ativas ilegais a nível regional, sendo 265 on demand e 214 de live streaming. Entre as empresas mais afetadas em títulos totais estão Netflix, Warner Bros. e Universal Pictures. 

"A pirataria está crescendo e tudo indica que continuará assim. É cada dia mais fácil piratear e transmitir o conteúdo – existe um 'pirata maior' que transmite, os menores retransmitem e assim por diante. Hoje, a pirataria já é fabricada pelo cidadão comum", alertou o diretor. 

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