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Banda larga via satélite
Como funciona o modelo de banda larga comunitária que a Viasat quer trazer para o Brasil
sexta-feira, 27 de julho de 2018 , 19h30

O modelo de banda larga comunitária que a Viasat pretende desenvolver no Brasil em parceria com a Telebras já alcançou, no México, pouco mais de 1,2 mil localidades em menos de um ano, está se expandindo a uma taxa de 400 por mês e deve chegar ao final do ano com mais de 3,5 mil distritos. Hoje o serviço, chamado de Community WiFi, é utilizado, segundo dados da Viasat, por cerca de 100 mil pessoas por mês e alcança comunidades que totalizam 500 mil habitantes.

TELETIME visitou algumas destas comunidades no interior do México, a convite da Viasat, em um evento com a presença de outros jornalistas. O perfil das cidades que contam com o serviço, que a empresa chama ainda de " Community WiFi"  é muito parecido com o de localidades que seriam atendidas no Brasil. Aglomerados de cerca de 500 habitantes de baixa renda, sem nenhum tipo de infraestrutura de comunicação (banda larga ou celular), distantes de centros urbanos, ainda que nos casos visitados, todos os locais fossem acessíveis por estrada de terra. A foto abaixo é do vilarejo de La Higuerita, típico desta região montanhosa do México:

Vilarejo de La Higuerita, no interior do México, a duas horas e meia de Guadalajara

 

No ponto azul, local das comunidades visitadas por jornalistas a convite da Viasat

O modelo da Viasat funciona de maneira muito parecida com o de pontos de venda de pré-pago, com a diferença que um ponto de acesso ao satélite é instalado, com uma antena de distribuição do sinal WiFi. A Viasat, por meio de parceiros, prospecta pequenos armazéns, lojas ou mesmo pessoas físicas dispostas a serem revendedores dos serviços nestas localidades. Alguns destes parceiros já tinham serviços semelhantes, por rádio ou mesmo banda Ku. O parceiro passa a ter uma comissão sobre o que for vendido de acesso banda larga em cada ponto de venda. O revendedor local, normalmente o dono do estabelecimento comercial em que o sistema é instalado, também é remunerado por comissionamento. No caso, em torno de 15% de tudo o que é vendido. A Viasat é quem faz a instalação de todo o kit no imóvel do representante de vendas: antena e LNB de recepção dos sinais banda Ka do satélite, CPE (terminal de modem do usuário), cabeamentos, unidade de transmissão WiFi, antena de WiFi e um terminal de computador (no caso, um PC de baixo custo com monitor e teclado). Tipicamente, a antena utilizada é de 75 cm, mas a Viasat tem instalado antenas um pouco maiores, de um metro, para assegurar maior robustez do sinal do Community WiFi. Não existe cobrança pelo kit, mas o varejista tem a responsabilidade pela energia utilizada e segurança dos equipamentos.

Típico ponto de venda do Community WiFi, com antena de banda Ka e WiFi no telhado. Na foto, ponto da vila de Cacalutan

A venda ao consumidor é pré-paga, ou seja, o usuário de Internet contrata o tipo de acesso que deseja: pode ser por tempo ou por franquia, sem limitação de velocidade em nenhum dos casos. A velocidade depende da região do acesso e da distância do ponto de WiFi, cuja cobertura é de até 500 metros, a depender dos obstáculos. No ponto de conexão, a velocidade é de 25 Mbps, em média. Os preços praticados pela Viasat no México são os seguintes:

 

* 3 horas – 42 pesos (aprox. R$ 8,40)

* 1 hora – 12 pesos (aprox. R$ 2,40)

* 200 Mb – 32 pesos (aprox. R$ 6,40)

* 450 Mb – 65 pesos (aprox. R$ 13)

* 1 Gb – 130 pesos (aprox. R$ 26)

 

Os valores no Brasil podem ser diferentes a depender do tributo. No modelo Internet para Todos, supostamente, não haverá ICMS, pois a venda é feita como um acesso ao Gesac (Programa Governo Eletrônico – Acesso ao Cidadão). Mas a Viasat diz que pretende atender com esse modelo comunidades que eventualmente tenham algum tipo de acesso, mas com baixa qualidade, Nestes casos, o modelo do Internet para Todos não poderia ser aplicado e aí vale o ICMS de cada estado. No México, existe apenas o IVA sobre as vendas, de 16%.

Ao escolher qual o tipo de acesso deseja, o consumidor se conecta à rede Wifi com qualquer dispositivo e, ao fazer o primeiro acesso, autentica sua conexão por meio de um PIN-Code gerado pelo terminal do vendedor. Inicialmente a Viasat tinha um modelo de cartão pré-pago, com um código escondido por uma "raspadinha", mas esse modelo tornou-se arriscado e vulnerável a fraudes e roubos, por isso hoje o PIN é gerado eletronicamente. O vendedor tem a opção, se preferir agilizar o processo de venda, de gerar vários PINs e deixá-los impressos previamente, mas com isso assume o risco de uma venda feita. Ao final do ciclo de faturamento, a Viasat, pelo sistema, informa o vendedor do total de vendas e gera o boleto para coletar a receita, já com o desconto da comissão. Já o pagamento aos representantes que gerenciam os diferentes pontos de venda é feito pela Viasat, em função do montante de vendas feitas pelas revendas.

Equipamento de banda larga e venda dos acessos (PIN-Codes) instalados no interior de um comércio local

Experiências práticas

Ester Garcia Lopez, dona de um pequeno armazém local e responsável pelo ponto de venda do acesso da Viasat na comunidade de Cacalutan (450 habitantes), diz que chega a vender mais de 64 acessos por dia. A maior parte da demanda, diz, está justamente em finais de semana, de modo que as vendas acontecem 30 dias por mês. Ela diz que o acesso mais comum é o de uma hora, de 12 pesos. Com isso, é possível, em uma conta simplificada, chegar à conclusão que naquela comunidade o sistema fatura, no mínimo, 19,3 mil pesos ao mês (R$ 3,87 mil), já descontado o IVA de 16%. Para a vendedora, fica uma receita de R$ 580/mês, aproximadamente. A Viasat não dá detalhes do custo de investimento e instalação do equipamento no México, mas nos EUA estima-se em US$ 700 (R$ 2,8 mil).

Na comunidade de Los Mezquites, de 150 habitantes, o volume de vendas é um pouco menor, entre 20 acessos por dia, com picos de 40 a 50 nos finais de semana, explica a proprietária de um comércio local, Maribel Caldenas. Ela conta que mesmo a vila não tendo nenhum serviço de telecomunicações, há um celular com capacidade de se conectar a uma rede Wifi em praticamente todas as casas. Isso porque as pessoas utilizam o telefone quando vão à cidade. Segundo ela, a maior parte das pessoas contrata o serviço para falar com parentes que vivem nos EUA por videochamada ou acessar redes sociais.

Maribel Caldenas, comerciante de Los Mezquites, é quem opera o sistema

 

José Guadalupe, em frente ao seu comércio local, na comunidade de La Higuerita

Na comunidade de La Higuerita, José Guadalupe Lara Ocampo é dono há 15 anos do único comércio local, em que vende alimentos, algumas ferramentas e uma curiosa coleção de antigas máquinas de fliperama. Ele conta que abriu o negócio quando retornou dos EUA, onde vivia como imigrante, e conhece bem o gosto e as necessidades dos clientes locais. Ele diz que foi um pouco cético quando o representante da Viasat o procurou oferecendo um serviço de Internet. Ele não imaginava que haveria demanda, mas está surpreso pelo interesse da comunidade, mas ainda espera ver o resultado financeiro, depois do primeiro ciclo de faturamento.

Novos serviços

Lisa Scalpone, vice-presidente de acesso residencial para a América Latina e interinamente gerente geral da operação no Brasil explica que a empresa pretende ampliar o serviço Community WiFi, agregando serviços além de conectividade. Ela diz que gostaria muito, por exemplo, que alguns provedores de conteúdo OTT, como Netflix, concordem com um modelo pré-pago fracionado por hora, que pudesse ser agregado à venda. Assim, o usuário paga um valor fixo e pode ter acesso ao conteúdo, mesmo sem ser assinante, e sem a necessidade de se comprometer com uma assinatura mensal.

Outros produtos que estão sendo pensados, diz Lisa Sclapone, envolvem a agregação de serviços de educação à distância e serviços de saúde, diz ela.

Para Kevin Cohen, general manager dos serviços de Community Wifi para as Américas, outra possibilidade que está sendo estudada é aproveitar o computador instalado junto com o kit de acesso em banda Ka e colocar algumas aplicações de interesse de um pequeno comércio, como software de controle de estoque e vendas.

A prospecção das comunidades, diz Cohen, começa sempre pelo mapeamento de onde existem serviços de telecomunicações, o que é feito em geral pelo criuzamento dos mapas de cobertura das antenas de celular. Onde não existem outros serviços, um representante vai à localidades, verifica a quantidade de habitantes, localiza e conversa com potenciais pontos de venda e define quem será o representante de vendas local. Não existe exclusividade, mas em geral as localidades muito pequenas não teria mercado para mais de um vendedor.

A ativação dos kits é feita por outra equipe de instaladores, remunerados por instalação, num modelo muito parecido do que acontece hoje com serviços de DTH. Segundo Cohen, problemas típicos desse tipo de logística, como roubo de equipamentos, dificuldades de locomoção e complicações na fixação dos equipamentos acontecem, mas é parte do risco do negócio, mas são minimizados com treinamento e políticas de boas práticas. Nas localidades visitadas, os proprietários dos pontos de venda do Community WiFi disseram que os instaladores levaram aproximadamente um dia para fazer a instalação. É uma produtividade baixa em relação a grandes metrópoles, mas comum para locais remotos com acesso mais complicado.

Sub-júdice

A estratégia da Viasat para o Brasil ainda está "sub-júdice", pois toda ela está baseada  na validação do acordo com a Telebras para exploração do SGDC (Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicação), que proverá a capacidade em banda Ka. O contrato tem sido alvo de contestações na Justiça (onde a Telebras conseguiu derrubar as liminares e por enquanto segue sem impedimentos) e, indiretamente, no Tribunal de Contas da União, onde, a partir de uma denúncia do SindiTelebrasil, o contrato entre a Telebras e o Ministério de Ciência, Tecnologia, Comunicações e Inovações (MCTIC) para a exploração do Gesac foi suspenso. A Viasat não depende do contrato do Gesac para seguir adiante com o Community WiFi, mas a mesma decisão do TCU que concedeu a cautelar questionou também o modelo do Internet para Todos. Esta política está diretamente ligada ao modelo Community WiFi.

Os representantes da empresa já se manifestaram. Dizem que acompanham a situação no Brasil e seguem comprometidos com a Telebras. Mas ao receberem a notícia da cautelar do TCU, o que aconteceu justamente durante o evento com os jornalistas no México, não esconderam uma certa frustração com as dificuldades encontradas no Brasil. Eles sabem que o Tribunal de Contas é um órgão relevante e que tem poder de modificar substancialmente o cenário de atuação da Telebras, o que afetará os resultados da parceria com a estatal.

Para as empresas de telecomunicações, a Viasat em si não é o problema, mas o fato dela ter acelerado a sua entrada no Brasil por meio de uma negociação direta com a Telebras para a exploração do SGDC, sem passar por um processo de licitação, trazia um grande risco. Lembrando que a Viasat não vem ao Brasil apenas para oferecer acesso a comunidades remotas onde ninguém mais chega. A empresa será a responsável por todos os equipamentos utilizados pela Telebras na oferta de serviços ao governo e terá direito de usar 58% da capacidade do SGDC para seus projetos comerciais, que incluem conectividade para aviões, serviços corporativos e até mesmo banda larga residencial. (O jornalista viajou a San Diego e México a convite da Viasat)

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