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Análise
O fim da era das incumbents
sexta-feira, 27 de março de 2015 , 14h37 | POR SAMUEL POSSEBON

Os números do balanço anual da Oi, e também os números já divulgados pela Telefônica/Vivo, mostram o rápido declínio dos serviços fixos prestados pelas concessionárias, sobretudo os serviços de telefonia fixa e a banda larga prestada por redes ADSL. É isso que se pode concluir quando se olha a competição na telefonia fixa e Internet no Brasil. E esse é um dos elementos que compõem o cenário da aquisição da GVT pela Telefônica, em uma tentativa de trazer para a incumbent um dinamismo perdido para a competição na última década.

Em banda larga, o grupo América Móvil, sobretudo por conta da atuação da Net, já é a maior operador de banda larga fixa há algum tempo e não deve perder essa posição com a fusão entre Telefônica e GVT. A GVT também ocupava uma fatia significativa do mercado (12%), mesmo tendo atuação bastante restrita em termos geográficos.

Mas são os dados de acessos de telefonia fixa que chamam a atenção para a mudança pela qual o mercado brasileiro passou após o ataque das operadoras competitivas, com mais ênfase nos últimos dez anos. Em algumas grandes cidades brasileiras, o mercado de telefonia fixa já é hoje dominado pelas empresas competitivas, sobretudo Net e GVT. Em Brasília, por exemplo, os dados de janeiro da Anatel mostram que havia consideravelmente mais acessos das autorizadas do que acessos das concessionárias no serviço de STFC. Na capital federal, eram 581 mil acessos das autorizadas (Net e GVT dominando) contra 394 mil da Oi. Em Belo Horizonte, são 719 mil em favor das autorizadas, contra 491 mil da Oi.  Em Campinas, 353 mil das concorrentes contra 243 mil acessos STFC da Telefônica/Vivo. Em Curitiba, berço da GVT, são 715 mil acessos das autorizadas contra 275 mil da concessionária Oi. Em cidades como Sorocaba (que foi uma das primeiras a ter a oferta de triple play pela Net), são 209 mil acessos STFC das autorizadas contra apenas 90 mil da Telefônica, apenas para exemplificar. No Brasil todo, há 95 cidades em que as autorizadas já deixaram as incumbents comendo poeira, mas são centros importantes, como Porto Alegre, Maceió, Belém, Goiânia, Fortaleza, Manaus, Salvador, Florianópolis, Piracicaba, Ribeirão Preto, Osasco entre outros, cidades que, em muitos casos, há competição chegou há, no máximo, 10 anos.

Nos dois principais centros metropolitanos, São Paulo e Rio, as concessionárias ainda têm a liderança do mercado de STFC, mas por pequena margem. Na capital paulista são 2,7 milhões de acessos de voz fixos das autorizadas, contra 3,5 milhões da incumbent Telefônica, que tem capilaridade muito maior. No Rio, o número é de 1,5 milhão para as concorrentes contra 1,6 milhão para a concessionária Oi.

Domínio de mercado

Segundo dados do Atlas Brasileiro de Telecomunicações de 2015, que circula esta semana, as operadoras autorizadas de STFC seguem fazendo um estrago no mercado das concessionárias. Os números de dezembro mostram que o mercado de telefonia fixa ficou estável em 2014, com uma pequena queda na teledensidade, mas que as autorizadas conquistaram um grande espaço.

Em 2014, a teledensidade de 21,8 acessos fixos por cem habitantes, uma pequena queda que se deve tanto ao crescimento populacional quanto a um crescimento mais lento da base total. Em 2013 eram 43,6 milhões de acessos fixos no Brasil, número que foi a 44,13 em dezembro de 2014.  O pequeno crescimento deve ser creditado às autorizadas, já que as concessionárias perderam nada menos do que 1,6 milhão de clientes no ano, fechando 2014 com uma base de 26,321 milhões de acessos, dos quais cerca de 870 mil são Terminais de Uso Público (TUPs) – os orelhões.

Já as autorizadas passaram de 15,8 milhões de acessos em 2013 para 17,8 milhões no final de 2014, um ganho substancial de 2 milhões de assinantes. Isso significa que a participação as operadoras de telefonia fixa autorizadas no mercado brasileiro era, em dezembro, de 40,3%, contra 36% um ano antes.

As 1,47 mil cidades em que as autorizadas de STFC estão presentes representam 83% do potencial de consumo brasileiro e 151 milhões de habitantes, ou seja, 75% da população brasileira.

Com a compra da GVT, a Telefônica finalmente passa a competir em serviços fixos fora de sua região de origem, com serviços residenciais, o que também é um fato digno de nota.

Fim de uma era

Nesta sexta, 27, o COO mundial do grupo Telefónica, José Maria Pallete, afirma em entrevista ao jornal Valor que a aquisição da GVT pelo grupo espanhol marca o fim de uma era, em que os serviços de voz predominavam e que os modelos de negócio eram baseados na venda de minutos de uso. Segundo ele, o novo modelo será baseado na venda de dados. Pallete não mencionou, mas além da venda de minutos de voz, outro elemento que definia o modelo das incumbents eram os degraus tarifários em função da distância, algo que há muito tempo também deixou de fazer sentido.

Coincidência ou não, a saída de Antonio Carlos Valente e Paulo César Teixeira, respectivamente ex-presidente e ex-CEO da Telefônica no Brasil, é também a saída dos dois mais graduados executivos que ainda ocupavam o comando de empresas de telecomunicações e que iniciaram carreira ainda no Sistema Telebras.

A entrevista mostra ainda que a Telefônica deve ampliar em 30% a média de investimentos anuais entre 2015 e 2017 em relação ao triênio anterior. A companhia, agora sob o comando de Amos Genish, deve investir cerca de R$ 8,3 bilhões por ano, segundo o jornal.

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