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Telefónica e Netflix assinam acordo; serviço estará no Brasil via IPTV até final do ano
quinta-feira, 24 de maio de 2018 , 16h12 | POR SAMUEL POSSEBON E FERNANDO LAUTERJUNG

A Netflix e a Telefónica anunciaram uma parceria global para integrar os serviços da Netflix nas plataformas de vídeo e TV da Telefónica na Europa e na América Latina. A parceria foi anunciada por meio de um vídeo de José María Álvarez-Pallete, presidente executivo da Telefónica, e Reed Hastings, cofundador e CEO da Netflix, compartilhado no Twitter.

Segundo a Vivo, o acordo permitirá à operadora oferecer ainda em 2018 uma experiência de uso integrado em sua plataforma de IPTV. Acordos de distribuição com operadoras de vídeo e TV já vêm sendo negociados há alguns anos pela plataforma de streaming, mas a prática ainda não havia sido adotada na América Latina. Liberty Global, Altice e a Comcast e várias outras operadoras tradicionais de TV paga já fecharam acordos semelhantes nos EUA e Europa, por exemplo.

A parceria estava prevista para ser fechada em fevereiro de 2017, quando deveria ter sido anunciada por Reed Hasting durante o Mobile World Congress, em Barcelona, mas os termos finais acabaram se alongando mais do que o esperado. Um acordo pan-regional com a  América Movil é o próximo grande passo esperado da Netflix para a America Latina, mas um acordo geral para a região passa pela complexa negociação no Brasil, onde as operadoras do grupo (Claro e Net) exigem de seus parceiros que a oferta de serviços seja feita exclusivamente por uma operadora, o que não é o caso da Netflix. O fator preço também já foi colocado pelo presidente da América Móvil do Brasil, José Félix, como um impeditivo, já que as condições comerciais não seriam interessantes para o grupo no país. Em agosto do ano passado, Felix declarou a este noticiário: "A América Móvil tem um acordo com eles (Netflix) em Porto Rico, porque não temos Clarovídeo lá. O resumo da conversa é que ele (Reed Hasting) disse que um dia eu teria o Netflix na Net, e eu disse que era verdade. Vai ter, é só questão de tempo e das condições comerciais. Hoje elas são muito ruins. Vejo o Netflix como um canal não-linear, assim como o Now é um canal não-linear. O que não sei como vai ser é quando cada canal adotar o modelo da Netflix. Ai você vai ter que assinar um monte de canal não-linear, e nesse momento surge um agregador de novo. A gente vai estar aí. A América Móvil produz conteúdo próprio também, para o Clarovídeo, que é a maior plataforma de VoD da América Latina. É Internet, então pode".

Conteúdos originais
A Telefônica investe pesado na produção de conteúdos originais na Espanha. No Brasil, teve papel importante na negociação de direitos esportivos na época do Terra TV, que chegou a exibir todas as partidas da Olimpíada de Pequim. A negociação de direitos e a produção de conteúdos, no entanto, se tornou proibida no Brasil com a lei 12.485, a Lei do SeAC. Os conteúdos produzidos na Espanha tem sido distribuídos em toda a América latina, com exceção do Brasil, pelas questões regulatórias. "La Peste", por exemplo, é uma produção claramente inspirada no modelo Netflix. A operadora não apontou se abandonará a política de ter conteúdos originais. Segundo apurou este noticiário, existe uma conversa paralela entre Netflix e Telefônica para incluir os conteúdos da tele espanhola na biblioteca do Netflix, mas não para agora. A Netflix tem uma política de não comercializar seus conteúdos originais fora de sua própria plataforma, a não ser quando existe algum parceiro envolvido.
Análise
A compreensão plena do significado da entrada da Netflix nas plataformas da Telefônica só virá quando se souber as condições em que esta parceria se apresentará ao consumidor. Ainda não se sabe, por exemplo, se a assinatura da Netflix será subsidiada para os assinantes Vivo (qualquer coisa abaixo de R$ 19,90 hoje cobrados no pacote de entrada Netflix), nem se estará disponível aos usuários dos serviços móveis, com algum benefício de franquia de dados, por exemplo. Tampouco se sabe o que acontecerá com os clientes Vivo que já assinam Netflix por conta própria.
A tese simplista de que Netflix é um competidor das operadoras de TV paga tradicionais fica fragilizada com este tipo de parceria, lembrando que várias operadoras tradicionais no mundo já incluem Neflix em seus menus de acesso, ainda que no Brasil nenhuma das grandes operadoras tivesse dado este passo. O que a experiência global já mostrou até aqui é que a Netflix se coloca muito mais como uma competidora das programadoras de TV paga, rivalizando pela oferta de conteúdos relevantes e audiência, do que em confronto direto com o distribuidor. É este conteúdo que certamente atraiu a Telefônica. Na Espanha e na América Latina, a operadora tem investido muito em conteúdo original, mas no Brasil essa estratégia não é possível por conta de restrições legais.
O foco da empresa californiana tem sido na produção de conteúdos, onde investe US$ 8 bilhões ao ano, e na expansão internacional (onde se insere o acordo com a Telefônica), inclusive com produções originais locais.  E isso por si só faz da Netflix uma competidora direta não das distribuidoras, mas sobretudo dos canais e programadoras.
Como reação, todas as programadoras estão desenvolvendo modelos de comercialização direta de conteúdos a assinantes, sem a necessidade da intermediação e autenticação do distribuidor. Muitas já lançaram os produtos, quase sempre com um certo cuidado, entretanto, para não melindrar as operadoras, que são suas clientes principais até o momento.
A entrada da Netflix na Telefônica, que certamente não  deve alterar nem um milímetro o modelo exitoso de venda que a Netflix já tem, pode ser o sinal verde que muitas programadoras estão esperando para irem para a venda direta ao consumidor (modelo também chamado de D2C, ou direct to customer).
Mas o que atraiu a Netflix para uma parceria com a Telefônica? Afinal, uma das principais inovações do modelo Netflix é que este modelo por ela desenhado pode existir sem que ela esteja presa a uma distribuidora, pois sua relação com o cliente, inclusive de billing, é direta. Ao cliente, basta ter uma banda larga para ter a Netflix. O acordo com a tele espanhola certamente assegurará uma interconexão dos seus servidores e CDNs diretamente à rede de banda larga da Telefônica, o que significa um acesso melhor para um universo de 7 milhões de clientes da banda larga fixa da Telefônica.
Fato é que a Netflix não precisa mais das operadoras de telecomunicações para crescer na base de usuários fixos. Esse era o quadro há três ou quatro anos, mas hoje, com seus cerca de 8 milhões de clientes no Brasil (estimativa de mercado, não números oficiais) e um valor de mercado que não para de aumentar, hoje superando o de gigantes como Disney e Comcast, a empresa californiana não precisa se esforçar tanto para convencer empresas de telecom a serem suas parceiras. Mas o acesso ao usuário móvel ainda é, para a Netflix, um objetivo importante.
A Telefônica , com um pouco menos de 1,6 milhões de assinantes de TV paga, não chega a 10% de market-share neste serviço no Brasil, e certamente seus clientes de IPTV e banda larga em fibra já assinam Netflix. Mas os 75 milhões de clientes móveis, metade dos quais pós-pagos, certamente interessam à Netflix para uma expansão de base.
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