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Análise
A Blue, a Net e o capítulo que se fecha
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015 , 19h12

A aprovação da compra das operações de cabo da Blue Interactive pela Claro (Net) por parte da superintendência geral Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) é um marco na história da TV por assinatura. Não o ato burocrático em si promovido pelo Cade. O simbolismo da operação está na venda desta operadora especificamente, em um processo que, diga-se de passagem, não é diferente de outros tantos que já aconteceram e que ainda passará pelo crivo da Anatel. A venda da Blue para a Net não só mostra a realidade do mercado de TV paga atual como é provavelmente a última deste tipo na indústria de TV por assinatura no Brasil.

O grupo econômico Blue Interactive em si é relativamente novo no mercado brasileiro, mas suas operações e história datam dos primórdios da indústria de TV paga. As duas primeiras operações do grupo (Pelotas e Rio Grande, no Rio Grande do Sul), foram duas das primeiras operações de cabo do país, e durante mais de 20 anos competiram com a Net nestas duas cidades. Primeiro, brigando com a Net Sul (ainda nos tempos em que esta era controlada pelo principal grupo de mídia gaúcho, a RBS), passando pela antiga Globocabo (já controlada pelo grupo Globo) e depois com a Net Serviços, adquirida pela Embratel (hoje América Móvil) em 2004, na operação que marcou o início do reinado das empresas de telecomunicações sobre a TV paga brasileira.

As operações de cabo da Blue, na época com outro nome, tiveram como acionistas inicialmente pequenos empresários locais. No final da década de 90 e em parte dos anos 2000 a então gigante do mercado de cabo norte-americano Adelphia (que fechou as portas depois de escândalos fiscais nos EUA) tornou-se acionista. Por muitos anos, a Adelphia, depois chamada de Viacabo e, posteriormente, Blue, foi quase um sinônimo de operação de TV a cabo independente no Brasil. O grupo despontou como uma das estrelas no processo de abertura do mercado em 2000 e, após a Lei do SeAC, em 2011, foi um dos poucos a atrair novos investidores financeiros de peso com um projeto de expansão pelo País. Nunca, contudo, chegou a figurar como um competidor de âmbito nacional contra a Net, Sky ou contra as outras teles, apesar de uma presença ampla em vários estados e 24 cidades. O seu teto de crescimento foram os cerca de 150 mil assinantes atuais. Os motivos para não ter conseguido uma expansão maior estão explicitados na argumentação de venda feita pela própria empresa ao Cade: dificuldade de competir com grandes operadoras em custos operacionais (especialmente programação), escala e ganhos de sinergias na oferta de múltiplos serviços que só as teles têm e uma carga regulatória desproporcional ao tamanho do negócio.

A venda da Blue para a Net, como atestou o Cade, não traz uma concentração significativamente maior do mercado de cabo, afinal, a empresa tem meros 150 mil assinantes, o que representa menos de 2% do mercado desta tecnologia e menos de 1% do mercado de TV paga total. As concentrações que possam ocorrer em municípios específicos onde as duas empresas competem também pouco ou nada alteram o cenário geral, já que nestas cidades ainda há vários operadores de DTH e existem outros competidores na banda larga.

Mas a operação mostra que a escala necessária para que se tenha uma operação de TV a cabo é desafiadora para pequenos ou novos entrantes e que a concentração em torno dos grandes players de telecomunicações, dadas as condições do mercado brasileiro, é praticamente inexorável. Sobram hoje menos de 500 mil assinantes em operações de cabo independentes Brasil afora, pulverizados em algumas dezenas de pequenos grupos. Vale lembrar que um movimento muito parecido de concentração está sendo observado nos EUA e Europa, com características um pouco distintas, mas apontando a mesma tendência.

Em sentido oposto, existe um outro movimento pelo Brasil, ainda pequeno em termos quantitativos, mas relevante do ponto de vista estratégico, de expansão de pequenos ISPs com redes de fibra. São empresas que estão entrando, sobretudo, em cidades pequenas e média onde a Net e a Telefônica não estão e a rede da Oi não tem condições de oferecer uma banda larga com qualidade. Estes operadores fazem, hoje, o que a Blue fez nos seus primórdios em Pelotas, no começo da década de 90: pequenas redes atendendo cidades de menor porte, mas buscando se diferenciar pela qualidade de atendimento e relacionamento com a comunidade local. A diferença entre o que acontece hoje com esses pequenos ISPs e o começo do mercado de TV a cabo dos anos 90 é que estas novas empresas só estão preocupadas em oferecer banda larga. Os serviços de vídeo, quando vierem, serão oferecidos no modelo over-the-top, sobre as redes de Internet, com outra equação de preço e custos de programação, num modelo ainda pouco claro para os atores tradicionais da indústria. Essa é uma realidade que pode indicar um caminho para o futuro da TV por assinatura fora dos grandes grupos de telecomunicações.

Outro caminho, este negativo, que vem sendo observado na indústria de TV paga brasileira vem pela pirataria de sinais, pelas redes que operam quase de maneira clandestina, sem pagar os insumos de programação ou impostos, ou nos serviços compartilhados, em que uma assinatura com vários pontos adicionais acaba atendendo, de maneira informal, várias residências (a chamada pirataria branca). Se os números da ABTA estiverem corretos, estes modelos (que são criminosos ou, no mínimo, muito danosos à indústria) representam um mercado que equivale a mais de 20% da indústria oficial, e que tende a crescer em um momento de crise econômica e aumento de ICMS nos Estados.

COMENTÁRIOS

4 Comentários

  1. Fabio disse:

    Esse fenômeno dos pequenos ISP é real na cidade onde moro (itaquaquecetuba -SP) , o descaso da VIVO em ofertar internet fez surgir a rede de fibra da empresa IVELOZ.

  2. Patrick disse:

    "A aprovação da venda das operações de cabo da Blue Interactive pela Claro (Net) por parte da superintendência geral Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) é um marco na história da TV por assinatura."
    Se eu não lesse mais adiante, eu teria entendido que a Claro (NET) foi quem vendeu as operações da Blue Interactive.

    O correto é "A aprovação da venda das operações de cabo da Blue Interactive PARA Claro (Net) por parte da superintendência geral Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) é um marco na história da TV por assinatura.

    Att.

  3. LUCIANO RODRIGO FALCAO disse:

    E qual a vantagem para o assinante blue, tendo em vista que agora quando tenta aumentar melhorar o produto é redirecionado para net e tem que optar por pacotes ainda mais caros.

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