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Análise
O 5G como uma questão de sobrevivência
sexta-feira, 14 de setembro de 2018 , 21h35

O Mobile World Congress Americas, que aconteceu esta semana em Los Angeles, foi o palco mais contundente, até agora, de estreia da quinta geração de serviços móveis (5G). Sem dúvida que este destaque ao tema de 5G se deve em grande parte ao fato de o evento acontecer nos EUA, cujas operadoras estão bastante avançadas com a quarta geração já há alguns anos e que têm como meta declarada liderar o movimento de migração para esta nova etapa da indústria móvel, em concorrência direta com a China, Japão e Coreia do Sul.

Mas a chegada da quinta geração é bem mais do que uma transição tecnológica. Até aqui, empresas operadoras de telecomunicações procuravam alongar estas transições de tecnologia porque sabiam que a cada nova etapa, mais investimentos em espectro e equipamentos seriam necessários. As migrações do analógico para a segunda geração (digital), do 2G para o 3G e, depois, do 3G para o 4G foram mais alongadas e suavemente digeridas do que a migração do 4G para o 5G que parece estar se dando nos EUA. Se há um ano, poucos arriscariam dizer que haveria alguma rede de 5G antes de 2020, agora já se fala em grandes lançamentos comerciais no começo de 2019, com as primeiras ofertas começando ainda este ano. Pelo menos nos mercados avançados.

Mas o que está por trás deste movimento? O primeiro fator é a necessidade de uma rede mais robusta e que contemple as demandas de velocidade dos usuários, mas não é só isso. A quinta geração vem com uma promessa (ou esperança) de que uma nova lógica de negócios possa se desenvolver para as operadoras de telecom, o que é essencial do ponto de vista dos resultados. A indústria de telecomunicações não está crescendo em termos de receita mais do que a economia do mundo cresce, e já foi há muito ultrapassada em termos de valor de mercado pelas empresas de Internet (na proporção de US$ 1 trilhão de valor de mercado em bolsa das teles para US$ 4 trilhões para as empresas de Internet, segundo os dados mais recentes calculados pela GSMA).

Do ponto de vista de novos serviços, inovação e reconhecimento de qualidade pelo consumidor, o setor de telecom tem enfrentado concorrências pesadas das empresas de Internet. Mas as pressões para investimentos seguem crescentes, e a perspectiva de recuperação destes investimentos com a mera venda de conectividade é péssima.

Um exemplo: o mercado mundial de IoT é estimado hoje em US$ 267 bilhões, dos quais apenas 9% (US$ 25 bilhões) ficam com os provedores de conectividade. O restante está com os provedores de plataformas, serviços e aplicações. Este mercado é estimado em mais de US$ 1,1 trilhão em 2025 (mesmo tamanho que o setor de telefonia móvel tem boje). Mas a proporção de receitas com conectividade nesse futuro mercado de IoT será ainda menor (5%), ainda que maior em números absolutos (US$ 54 bilhões). E quem faz essa conta são as próprias teles, no caso o departamento de inteligência da GSMA. Ou seja, o grosso do mercado de Internet das Coisas não ficará para as teles, a não ser que elas consigam mudar a sua lógica de mercado e atuar na prestação de serviços de IoT e integração de plataformas.

A quinta geração é uma forma de começar a mudar esse jogo, e a principal aposta da indústria é no chamado "slicing". Trata-se de uma das características da 5G que consiste basicamente em uma super-customização das conexões de cada usuário. Ao invés de uma conexão de dados igual para todos os clientes de um mesmo serviço como se tem hoje (com alguma pequena possibilidade de ajustes de qualidade de um usuário para outro, mas bastante limitada), a nova geração permite, virtualmente, que cada conexão tenha parâmetros de qualidade, latência, velocidade, frequência e robustez adequadas ao seu uso. Ou seja, cada conexão de dados poderá ser única. Isso é o que as teles precisam para reinventar o seu modelo de negócios, até hoje baseada na oferta de conexão pura e simples (e ai, esqueça o conceito de neutralidade de rede, mas isso é tema para outra análise).

O "slicing" é uma das mudanças que decorre imediatamente da nova tecnologia. Outra mudança é a possibilidade de integração dos serviços de 5G com outras aplicações. Veículos autônomos, casas conectadas, dispositivos de Internet das Coisas, serviços avançados de mídia e entretenimento, aplicações de saúde digital… Tudo o que pode ser oferecido por meio das conexões de 5G só funcionará, na prática, se alguém for capaz de integrar um ecossistema bastante grande de parcerias e atores, porque as soluções serão cada vez mais complexas. A aposta que as teles estão fazendo é que elas terão condições de liderar essa integração. É complicado, porque são empresas que não têm a cultura de desenvolver produtos complexos e gerenciar ecossistemas de múltiplos atores. Parece que as empresas de Internet teriam mais capacidade de exercer este papel, mas as empresas de telecom sabem que não podem pagar para ver, sob o risco de perderem ainda mais o protagonismo.

A transição para a nova geração de serviços móveis é, portanto, um processo que vai muito além da  questão das frequências, troca dos equipamentos e preparação das redes (ainda que tudo isso seja essencial). Trata-se de uma mudança que implica profundos ajustes na cultura das empresas de telecomunicações, envolve uma cadeia muito maior de atores e uma infinidade de modelos de negócio sobre os quais sabe-se ainda muito pouco. E mesmo com tudo isso, pelo menos nos mercados mais desenvolvidos, essa transição já começou. Por uma simples questão de sobrevivência.

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